Rússia aprovou treinamento militar secreto na China, revela Reuters — o que é fato e o que é alegação

Um furo da Reuters colocou preto no branco o que inteligências europeias vinham insinuando: documentos confidenciais descrevendo treinamento militar secreto de forças russas dentro da China. Pequim nega com veemência. Este dossiê organiza a reportagem, as respostas oficiais e — separadamente — os fatos públicos e verificáveis da relação militar e econômica China-Rússia, para você tirar suas conclusões com base no que existe de concreto.
Em resumo
- Reuters (01/07/2026): treinamento secreto de ~200 militares russos em Pequim e Nanjing no fim de 2025 (drones, explosivos, minas, guerra eletrônica + defesa QBRN), aprovado por decreto interno de Belousov em ago/2025 — base: 2 autoridades europeias + documentos confidenciais.
- A China chama as alegações de 'totalmente infundadas'; ministérios da Defesa não responderam; Kremlin pede 'forte ceticismo' — é alegação documentada, não fato confirmado.
- Fatos públicos: parceria 'sem limites' (fev/2022), Vostok-2022 com 2.000+ soldados chineses, 9 patrulhas aéreas conjuntas desde 2019 (Tu-95 + H-6).
- Economia: comércio bilateral recorde de US$ 244,8 bi (2024); China é o maior parceiro da Rússia há 15 anos; petróleo russo com desconto; acusações ocidentais de componentes dual-use (Pequim nega armas letais).
- Reações: Kallas (UE) fala em 'informação verificada'; Rutte (OTAN): Rússia 'recebe apoio vital da Coreia do Norte, China e Irã'; Putin esteve em Pequim em mai/2026 (Power of Siberia).
O que a Reuters revelou (e de onde veio)

A reportagem publicada em 1º de julho — reproduzida no Brasil pela CNN — se baseia em duas autoridades europeias e documentos confidenciais vistos pela agência. O núcleo: o treinamento de forças russas na China no fim de 2025 foi aprovado pessoalmente pelo ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, por meio de um decreto interno de agosto de 2025, e envolveu ao menos quatro generais russos e chineses. Cerca de 200 militares russos teriam passado por Pequim e Nanjing, treinando drones, explosivos, minas e guerra eletrônica — além de um curso de três semanas de defesa radiológica, química e biológica. A reportagem cita nomes: o acordo teria sido assinado pelo major-general russo Rustam Khusainov e pelo coronel-sênior chinês Sun Dayun, com delegação liderada pelo coronel-general Rustam Muradov.
O outro lado: negativa 'total' de Pequim e silêncio de Moscou

O Ministério das Relações Exteriores da China classificou as alegações como 'totalmente infundadas' e reiterou sua posição de neutralidade na guerra da Ucrânia. Os ministérios da Defesa da Rússia e da China não responderam aos pedidos de comentário da Reuters, e o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, pediu que os relatos fossem tratados 'com forte ceticismo'. Registro importante de método: trata-se de alegação bem documentada — documentos vistos pela agência e fontes de inteligência —, mas negada por Pequim e não confirmada de forma independente. A afirmação de que militares treinados depois foram à Ucrânia também é atribuída às inteligências europeias, sem confirmação.
O que É público: Vostok, patrulhas aéreas e a parceria 'sem limites'

Independentemente do furo, a aproximação militar é documentada publicamente há anos. Em fevereiro de 2022, semanas antes da invasão da Ucrânia, Putin e Xi declararam uma parceria 'sem limites' e 'sem áreas proibidas de cooperação'. No mesmo ano, a China participou do exercício Vostok-2022 em território russo com mais de 2.000 soldados, 300 veículos e 21 aeronaves. Desde 2019, os dois países realizam patrulhas aéreas estratégicas conjuntas — a nona, em novembro de 2024, juntou bombardeiros Tu-95 russos e H-6 chineses sobre o Mar do Japão e levou Japão e Coreia do Sul a decolar caças de prontidão.
A economia que sela o eixo: US$ 245 bi e petróleo com desconto

O pano de fundo econômico é sólido e público: o comércio bilateral bateu recorde de US$ 244,8 bilhões em 2024 — mais que o dobro de 2020 — e a China é o maior parceiro comercial da Rússia há 15 anos consecutivos, comprando volumes crescentes de petróleo russo com desconto desde as sanções ocidentais. Governos ocidentais também afirmam que componentes chineses de uso dual (chips, máquinas-ferramenta, peças de drones) sustentam a indústria bélica russa — Pequim nega fornecer armas letais. Em maio de 2026, Putin fez visita de Estado a Pequim, com acordos de energia incluindo o gasoduto Power of Siberia.
Reações — e por que isso importa pro Brasil

As reações vieram em cascata: Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, disse semanas antes que Bruxelas tinha 'informação verificada' de treinamento chinês a soldados russos (Pequim chamou de 'calúnias'); o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirma que 'a Rússia não está sozinha — recebe apoio vital da Coreia do Norte, da China e do Irã'. Para o leitor brasileiro, o ponto prático: o eixo Pequim-Moscou mexe com sanções, rotas de comércio, preço de energia e o tabuleiro em que o Brasil se equilibra entre os blocos. Geopolítica hoje é custo de importação amanhã — e quem opera com a China precisa acompanhar o tema com informação de qualidade, separando fato de alegação.
Os números
- ~200 — militares russos teriam treinado em Pequim e Nanjing no fim de 2025, sob acordo sigiloso — segundo documentos vistos pela Reuters e duas autoridades europeias
- ago/2025 — a data do decreto interno do ministro da Defesa russo Andrei Belousov autorizando a delegação a treinar em instalações do Exército chinês, segundo a reportagem
- 3 semanas — a duração do curso de defesa radiológica, química e biológica numa instalação militar de Pequim, incluindo observação de modelo de reator nuclear
- US$ 244,8 bi — o comércio bilateral recorde China-Rússia em 2024 — mais que o dobro de 2020; a China é o maior parceiro da Rússia há 15 anos (fato público)
- 2.000+ — soldados chineses participaram do exercício militar russo Vostok-2022, com 300 veículos e 21 aeronaves (fato público)
- 9 — patrulhas aéreas estratégicas conjuntas desde 2019 — bombardeiros russos Tu-95 e chineses H-6; a de nov/2024 fez Japão e Coreia do Sul decolarem caças (fato público)
Fontes
- Reuters (exclusiva, 01/07/2026; reproduzida por CNN Brasil, US News, HuffPost, Express Tribune, Meduza): decreto de Belousov, ~200 militares, cursos em Pequim/Nanjing, nomes dos generais (Khusainov, Sun Dayun, Muradov) e a base de fontes (2 autoridades europeias + documentos confidenciais). CNN Brasil: negativa da China ('totalmente infundadas') e declaração de Kaja Kallas de 15/06. Dagens/APA: reação de Mark Rutte (OTAN) e ceticismo de Peskov. Al Jazeera e CSIS: participação chinesa no Vostok-2022. Japan Times e USNI News: patrulhas aéreas conjuntas (9ª em nov/2024). Moscow Times e Merics: comércio recorde de US$ 244,8 bi em 2024 e 15 anos de liderança comercial chinesa. CEPA: componentes de uso dual. Foreign Policy: parceria 'sem limites'. NPR e CNBC: visita de Estado de Putin a Pequim (mai/2026) e acordos de energia.