Ormuz: consultoria de Washington confirma — a China saiu ganhando da crise do petróleo

Quando o Estreito de Ormuz foi bloqueado, a lógica dizia que a China — maior importadora de petróleo do mundo — seria a maior vítima. Nós escrevemos em junho que estava acontecendo o contrário. Agora uma consultoria de Washington, fundada por um dos arquitetos da política dos EUA para a Ásia, pôs no papel: a China saiu ganhando. Este dossiê mostra a linha do tempo, os quatro movimentos da estratégia chinesa e o efeito — recorde — no petróleo brasileiro.
Em resumo
- The Asia Group (Kurt Campbell), via CNN/NYT: a China foi a grande beneficiada da crise de Ormuz — 'é difícil não concluir que a China é a vencedora'; Pequim usou a crise para se vender como 'parceiro estável' e validar sua estratégia de autossuficiência.
- Linha do tempo: bloqueio no fim de fev/2026 (não junho), tráfego -90%, Brent de US$ 100 a US$ 126 (maior alta mensal da história), recuo a ~US$ 94 em junho (Wikipedia/agências, Al Jazeera, Fortune).
- Estratégia: reservas recordes (~1,4 bi barris/109 dias) + corte de 30% nas importações sacando estoques (74% da queda do comércio global; volatilidade interna 1/5 da mundial) + via iraniana (90% do petróleo do Irã, desconto, fora do dólar, passagem privilegiada) + rotas por terra (Rússia/Cazaquistão) e CIPS a US$ 130 bi/dia.
- Brasil: exportações de petróleo à China dobraram no 1º tri (recorde US$ 7,2 bi; share de ~40% para ~70%; >60% da Petrobras), mas fertilizantes +180% e fretes em nível de pandemia (Terra, CNN/Fiemg).
- Follow-up do post 415 ('A China deveria ser a maior vítima de Ormuz. Virou a maior beneficiada?') — a previsão se confirmou com relatório independente.
A linha do tempo real (e o tamanho do choque)

O bloqueio não foi em junho, como muita gente pensa: veio no fim de fevereiro de 2026, depois dos ataques aéreos de EUA e Israel ao Irã (28/02), com Teerã confirmando o fechamento em 2 de março — minas navais, abordagens a mercantes e tráfego 90% menor. O cessar-fogo de abril fracassou em reabrir de vez; o Irã anunciou liberar a navegação comercial em 17 de abril, mas as restrições seguiram por meses, com aberturas seletivas. O choque de preços foi histórico: Brent acima de US$ 100 pela primeira vez em 4 anos já em 8 de março, pico de US$ 126 e a maior alta mensal da história — analistas chegaram a projetar US$ 200, e as Filipinas decretaram emergência energética.
O veredito de Washington: 'a China é a vencedora'

O relatório é do The Asia Group, consultoria estratégica de Washington presidida por Kurt Campbell — ex-coordenador da política dos EUA para o Indo-Pacífico. A conclusão, noticiada pela CNN e pelo New York Times: a crise afetou as economias asiáticas de forma desigual, e a China saiu ganhando pela capacidade de diversificar fornecimento e recorrer a reservas estratégicas. Campbell resume: 'É difícil não chegar à conclusão de que a China é a vencedora aqui'. O relatório acrescenta que Pequim usou a crise para se promover como 'parceiro estável de escolha' — e a vê como 'validação definitiva de sua estratégia de autossuficiência industrial'. Para a China, diz o texto, 'esse é um problema a ser administrado, não uma crise'.
Os 4 movimentos da estratégia chinesa

Primeiro: encher o tanque antes do incêndio — reservas recordes de ~1,3-1,4 bilhão de barris (109 dias de importações), com compras recordes em 2025 (13,18 milhões de barris/dia só em dezembro). Segundo: quando o preço explodiu, parar de comprar — a China sacou ~1 milhão de barris/dia dos estoques e cortou importações para 7,8 milhões de b/d em maio; essa retração respondeu por 74% da queda do comércio global de petróleo e foi o que segurou o Brent (a volatilidade dos preços domésticos chineses foi 1/5 da internacional). Terceiro: a via iraniana — a China compra ~90% do petróleo do Irã com desconto, via refinarias independentes de Shandong e pagamento fora do dólar, e Teerã deu passagem aos navios chineses mesmo durante o bloqueio, alguns com escolta. Quarto: rotas que não passam por Ormuz — oleodutos por terra da Rússia e do Cazaquistão e mais óleo russo por mar, com o sistema de pagamentos CIPS (alternativa chinesa ao SWIFT) saltando para mais de US$ 130 bilhões/dia na crise.
O efeito Brasil: recorde de US$ 7,2 bi (e a conta dos fertilizantes)

Para o Brasil, a crise teve efeito duplo. Do lado bom: as exportações de petróleo para a China dobraram no 1º trimestre de 2026, batendo recorde de US$ 7,2 bilhões — a fatia da China no cru brasileiro saltou de ~40% para perto de 70%, e mais de 60% das exportações da Petrobras hoje vão para lá. O pré-sal, com rota atlântica segura, virou alternativa natural ao petróleo do Golfo. Do lado ruim: fertilizantes importados subiram 180% em maio e fretes/seguros voltaram a níveis de pandemia (Fiemg). A lição que fica — e que vale para qualquer negócio: crise global não pergunta de que lado você está; pergunta se você se preparou. A China se preparou por uma década.
Os números
- -90% — a queda do tráfego no Estreito de Ormuz após o bloqueio iraniano no fim de fevereiro/2026 — por ali passa ~20% do petróleo mundial e 1/3 do petróleo importado pela China
- US$ 126 — o pico do Brent na crise (primeira vez acima de US$ 100 em 4 anos; maior alta mensal da história em março) — em junho já recuava a ~US$ 94
- ~1,4 bi — de barris nas reservas estratégicas chinesas (~109 dias de importações), as maiores do mundo — abastecidas ANTES da crise, com importações recordes em dezembro/2025
- 74% — da queda do comércio global de petróleo veio da retração chinesa: Pequim sacou ~1 mi de barris/dia das reservas e cortou importações em ~30%, segurando o preço mundial
- ~90% — do petróleo exportado pelo Irã vai para a China (1,4 mi b/d), com desconto e pagamento fora do dólar — e Teerã deu passagem privilegiada aos navios chineses, até com escolta
- US$ 7,2 bi — o recorde das exportações brasileiras de petróleo à China no 1º trimestre/2026 (dobraram); a fatia chinesa no cru brasileiro saltou de ~40% para ~70%
Fontes
- CNN Brasil (01/07/2026): relatório do The Asia Group — diversificação, reservas estratégicas, exportações de tecnologia limpa e citações ('parceiro estável de escolha'; 'problema a ser administrado, não uma crise'). New York Times (via Brasil 247): Kurt Campbell — 'a China é a vencedora'; 80% do petróleo e 90% do gás da Ásia passam pelo estreito; importações chinesas -30% em maio. Wikipedia (2026 Strait of Hormuz crisis) e agências: linha do tempo (ataques 28/02, bloqueio 02/03, tráfego -90%, aberturas seletivas, liberação em 17/04). Al Jazeera: Brent US$ 126 e supertankers chineses saindo do Golfo com aval iraniano; refinarias teapot de Shandong e ~90% do petróleo iraniano. Fortune: reservas de ~1,3-1,4 bi de barris, saque de ~1 mi b/d, importações a 7,8 mi b/d e 74% da queda do comércio global. EIA/IndexBox: compras recordes de 2025 (13,18 mi b/d em dezembro). CSCR/Atlantic Council: CIPS a US$ 130 bi/dia. MEPEI/Vortexa/GEM: oleodutos Rússia e Cazaquistão. Terra: exportações brasileiras dobraram (US$ 7,2 bi, share ~70%, >60% da Petrobras). CNN Brasil/Fiemg: fertilizantes +180% e fretes em nível de pandemia.