O ouro teve o pior trimestre em mais de uma década e a China não parou de comprar

O ouro teve o pior trimestre em mais de uma década e a China não parou de comprar

O ouro, o ativo que todo mundo corre para comprar quando o mundo treme, acabou de ter o pior trimestre em mais de uma década. Caiu cerca de 14% desde abril e já está perto de 27% abaixo da máxima histórica de aproximadamente US$ 5.595 a onça, batida em janeiro de 2026. O detalhe contraintuitivo: ele caiu por causa de uma guerra, não apesar dela. Do outro lado do mundo, porém, a história é diferente. Enquanto o pequeno investidor do Ocidente vendia no pânico, a China seguiu comprando, do banco central às chamadas 'tias do ouro'. Aqui você entende o que aconteceu, por que aconteceu e o que isso ensina sobre o seu próprio dinheiro, tudo verificado em mais de uma fonte.

Em resumo

  • O ouro caminha para o pior trimestre desde 2013 (o pior em mais de uma década): ~ -14% desde abril e perto de -27% da máxima histórica de ~US$ 5.595/oz, batida em janeiro de 2026 (Financial Times, Reuters via TradingView, NAI500).
  • Caiu por causa da guerra, não apesar dela: a tensão com o Irã elevou o medo de inflação, o mercado passou a esperar juros mais altos e o dólar ficou forte, tudo contra o ouro, que não paga juro (FT, NAI500).
  • A febre do varejo esfriou: o Gold Investor Index da BullionVault caiu para 55,1 em abril, a maior queda mensal desde janeiro de 2012 (BullionVault via NAI500).
  • O banco central da China comprou ouro por 19 meses seguidos até maio de 2026 (maior sequência desde 2015); reservas de ~2.322 toneladas, ~9% das reservas cambiais, com +9,9 t em maio (Bloomberg, World Gold Council).
  • A China é a maior consumidora de ouro do mundo, com demanda projetada em ~1.298 toneladas em 2026; 'tias' (大妈) e Gen Z compram joia, barrinha e ETFs via WeChat/Alipay, com entradas recordes e volume recorde na bolsa de Xangai (World Gold Council, Statista, The Star).

O pior trimestre em mais de uma década

O pior trimestre em mais de uma década

Depois de uma corrida histórica, o ouro virou a chave. O metal caminha para o pior trimestre desde 2013: uma queda de cerca de 14% desde abril, deixando o preço perto de 27% abaixo da máxima histórica de aproximadamente US$ 5.595 a onça, registrada em janeiro de 2026. Em poucos meses, o 'porto seguro' que parecia imbatível devolveu boa parte do que tinha subido na empolgação. Para quem entrou no topo achando que só subiria, foi um banho de água fria.

Por que o porto seguro afundou

Por que o porto seguro afundou

A parte que confunde: o ouro caiu por causa da guerra, não apesar dela. A tensão com o Irã jogou o medo de inflação para cima. Com mais inflação no radar, o mercado passou a esperar juros mais altos, e o dólar ficou forte. Tudo isso joga contra o ouro, por um motivo simples: ouro não paga juro. Se um título do governo te paga uma taxa garantida e atraente, segurar um metal parado fica caro. O dinheiro migra para onde rende, e o preço do ouro cai.

A febre do varejo que esfriou

A febre do varejo que esfriou

O lado mais doloroso da história é o do pequeno investidor. A 'febre' de comprar ouro esfriou de uma vez em abril: um índice que mede o humor do investidor de varejo teve a maior queda mensal desde janeiro de 2012. É o roteiro de sempre, o mesmo que viralizou em forma de piada: comprar ouro 'para se proteger da inflação' no auge da euforia, não ganhar quase nada no caminho e ainda vender mais barato lá na frente. A manada entra no topo e sai no fundo.

A China não parou de comprar

A China não parou de comprar

Enquanto o varejo do Ocidente vendia no pânico, o banco central da China (PBoC) fez o oposto. Foram 19 meses seguidos comprando ouro até maio de 2026, a maior sequência ininterrupta desde pelo menos 2015, quando o país passou a divulgar os dados mensalmente. As reservas de ouro já passam de 2.300 toneladas, cerca de 9% de todas as reservas cambiais. Não é emoção: é estratégia de longo prazo, depender menos do dólar e ter lastro físico no cofre, comprando aos poucos, todo mês, no calor e no frio do mercado.

As tias do ouro (e a Gen Z)

As tias do ouro (e a Gen Z)

Não é só o governo. A China é a maior consumidora de ouro do mundo, e quem puxa a fila são as 'tias', em chinês 大妈, as senhoras que entendem de poupar. Elas compram barrinha, joia e até 'feijõezinhos' de ouro de 1 grama, guardados em potinho de vidro. A nova geração entrou junto, do jeito dela: compra ouro pelo celular, em fundos dentro do WeChat e do Alipay, com a facilidade de pedir um café. Os fundos de ouro da China tiveram entradas recordes e o volume de negociação na bolsa de Xangai bateu máxima.

A lição: estratégia, não manada

A lição: estratégia, não manada

Junta tudo e aparece o contraste que importa. De um lado, o investidor que compra na manchete, no pico da euforia, e depois lamenta o prejuízo. Do outro, um país que compra de pouquinho, todo mês, com horizonte de anos, do banco central às famílias. A demanda de ouro da China em 2026 é projetada em torno de 1.298 toneladas, mesmo com o preço caindo. Quando a maior compradora do mundo segue comprando, é ela que ajuda a definir o preço lá na frente. Proteção de verdade não é seguir manada: é estratégia, prazo e cabeça fria.

Os números

  • −27% — a queda do ouro frente à máxima histórica de ~US$ 5.595 a onça, batida em janeiro de 2026
  • 2013 — o ano da última vez que o ouro teve um trimestre tão ruim; agora é o pior em mais de uma década
  • 19 meses — a sequência ininterrupta de compras de ouro do banco central da China até maio de 2026, a maior desde 2015
  • ~2.322 t — as reservas de ouro da China, cerca de 9% de todas as reservas cambiais do país
  • ~1.298 t — a demanda de ouro projetada para a China em 2026, a maior consumidora do mundo

Fontes

  • Financial Times e Reuters (via TradingView): ouro no pior trimestre em mais de uma década / 13 anos, por dólar forte e aposta em juros mais altos. NAI500 e Business Post: ~ -14% desde abril, ~ -27% da máxima de ~US$ 5.595/oz, queda do Gold Investor Index da BullionVault para 55,1 (maior desde jan/2012). Bloomberg e World Gold Council: PBoC com 19 meses seguidos de compras até maio/2026, reservas ~2.322 t (~9% das reservas), +9,9 t em maio. Statista, The Star e World Gold Council: China como maior consumidora, demanda projetada ~1.298 t em 2026, 'tias'/大妈 e Gen Z, ETFs via WeChat/Alipay com entradas recordes e volume recorde na bolsa de Xangai.

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