Por que o ar-condicionado da Midea esgotou na Europa

Em junho de 2026 a Europa viveu uma das ondas de calor mais severas da sua história, com recordes nacionais caindo em vários países e mais de mil e trezentas mortes ligadas ao calor. O detalhe que muita gente ignora é que a Europa quase não tem ar-condicionado em casa: a penetração é de cerca de 20%, contra quase 90% nos Estados Unidos. Foi nessa brecha que a Midea (美的), a maior fabricante de eletrodomésticos do mundo, com sede em Foshan, na China, viu as vendas dispararem e o estoque esgotar. Não é palpite: são números confirmados em mais de uma fonte.
Em resumo
- Junho de 2026 foi um dos mais quentes da história da Europa: Espanha 45,1°C, França 44,3°C, Alemanha 41,7°C, e mais de mil e trezentas mortes ligadas ao calor.
- A Europa quase não tem ar-condicionado residencial: cerca de 20% de penetração, contra perto de 90% nos EUA; na China urbana passa de um aparelho por domicílio.
- A Midea (美的), sediada em Foshan, é a maior fabricante de eletrodomésticos do mundo, faturou cerca de 66 bilhões de dólares em 2025 e é dona da robótica alemã KUKA.
- As vendas de ar-condicionado da Midea na Europa subiram 35% no semestre; e-commerce alemão +37% em maio; embarques pra Espanha e França +108% no ano.
- O PortaSplit, que resfria sem furar a parede, custa cerca de 900 euros, foi eleito uma das melhores invenções de 2025 pela TIME e esgotou, com usado custando mais que novo.
A onda de calor recorde

Junho de 2026 trouxe uma onda de calor histórica à Europa. A Espanha registrou 45,1°C em Andújar, a França bateu o recorde nacional com 44,3°C e a Alemanha cravou seu recorde absoluto de 41,7°C. Mais de mil e trezentas mortes no continente foram associadas ao calor extremo, com a França sozinha respondendo por cerca de mil delas. A Organização Meteorológica Mundial aponta que a Europa aquece a mais de duas vezes a média global.
Europa sem ar-condicionado

Diferente do que o brasileiro imagina, a Europa quase não tem ar-condicionado residencial. A penetração ronda os 20% no continente, segundo a Agência Internacional de Energia, contra cerca de 90% nos Estados Unidos. Na China urbana, há mais de um aparelho por domicílio. Em países como a Alemanha, instalar um split tradicional ainda esbarra em regras de fachada que proíbem furar a parede de prédios históricos, e o custo de instalação passa de mil euros.
Quem é a Midea (美的)

A Midea é a maior fabricante de eletrodomésticos do mundo, com sede em Foshan, no distrito de Shunde, província de Guangdong. Em 2025 faturou cerca de 456,5 bilhões de yuans, aproximadamente 66 bilhões de dólares, com lucro recorde. Não é só fogão e geladeira: em 2016 a Midea comprou a alemã KUKA, uma das 'Big Four' da robótica industrial mundial, ampliando sua atuação para automação de fábricas.
As vendas explodiram

Com o calor, a demanda disparou. As vendas de ar-condicionado da Midea na Europa cresceram 35% no primeiro semestre de 2025, segundo o South China Morning Post. O e-commerce na Alemanha subiu cerca de 37% só em maio, e os embarques para Espanha e França saltaram 108% em um ano. A Itália foi o maior mercado europeu, com cerca de 160 mil unidades, seguida pela Alemanha, com 44 mil.
O PortaSplit que esgotou

O produto símbolo foi o PortaSplit: um ar-condicionado que resfria sem precisar furar a parede do prédio, resolvendo a barreira das fachadas protegidas na Europa. Custa cerca de 900 euros na versão só frio e 1.200 na versão quente e frio. Foi eleito uma das 'Melhores Invenções de 2025' pela revista TIME. A procura foi tão intensa que o aparelho esgotou em vários canais, e em alguns deles a unidade usada chegou a custar mais que a nova.
Os dois lados

A história tem duas faces. De um lado, a China resolveu uma dor real do europeu, com um produto barato e fácil de instalar, no meio de uma crise de calor que matou mais de mil pessoas. De outro, fica o debate: mais ar-condicionado significa mais consumo de energia e mais pressão sobre a rede elétrica europeia, e a Europa fica ainda mais dependente da fabricação chinesa para enfrentar suas próprias ondas de calor. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
Os números
- 35% — de alta nas vendas de ar-condicionado da Midea na Europa no primeiro semestre de 2025 (SCMP)
- 20% — a penetração de ar-condicionado nos lares europeus, contra cerca de 90% nos EUA (IEA)
- 45,1°C — a temperatura máxima registrada na Espanha em junho de 2026, no auge da onda de calor
Fontes
- South China Morning Post, 'Midea’s AC sales surge 35% in Europe amid heatwaves' — alta de 35% no 1º semestre, Itália 160 mil unidades, Alemanha 44 mil, 43% de receita vinda do exterior.
- CNN/Egypt Independent (wire) e Edgen — e-commerce alemão +37% em maio, embarques Espanha/França +108%, penetração de ~20% na Europa (IEA), PortaSplit esgotado e usado mais caro que novo.
- IEA e Euronews — penetração de ar-condicionado de ~20% na Europa vs ~90% nos EUA; China urbana acima de 100%.
- Wikipedia '2026 European heatwaves', WMO e severe-weather.eu — recordes de junho de 2026: Espanha 45,1°C, França 44,3°C, Alemanha 41,7°C; mais de 1.300 mortes.
- Wikipedia 'Midea Group', BusinessWire e Yicai Global — sede em Foshan, maior fabricante de eletrodomésticos do mundo, receita ~RMB 456,5 bi (~US$66 bi) em 2025, dona da KUKA (2016).
- TIME 'Best Inventions of 2025', Midea e PRNewswire — PortaSplit eleito uma das melhores invenções de 2025; preços de 900 e 1.200 euros.