O sorvete de cachorrinho e a máquina de comida viral da China

Apareceu um sorvete em formato de cachorro tão real que parece de mentira, e ele rodou o mundo nas redes. Mas o sorvete não é o ponto. O interessante é a máquina por trás: na China, e na Ásia em geral, comida de rua virou uma engrenagem de marketing. O prato é desenhado pra ser fotografado primeiro e comido depois. Você não compra um sorvete, compra um post. Vale entender como isso funciona, sem hype e sem inventar número.
Os números
- 600 mi/dia — usuários ativos por dia no Douyin, o TikTok chinês
- 300 mi/mês — usuários no Xiaohongshu, o app que decide onde comer
- 2018 — ano em que o sorvete de cachorro virou febre
- US$ 8,4 bi — valor da economia de influência chinesa já em 2016
O sorvete que ninguém queria comer

Por volta de 2018, uma cafeteria começou a moldar sorvete em formato de cães peludos hiper-realistas: pug, labrador, shar pei, feitos à mão. O resultado era tão fofo e tão estranho ao mesmo tempo que as pessoas paravam de comer só para fotografar. Importante ser honesto: esse sorvete específico nasceu em Taiwan, não na China continental, mas virou o exemplo perfeito de um fenômeno que domina os apps chineses.
Quando a comida vira conteúdo

Ninguém ia àquela loja com fome de sorvete: ia atrás da foto, do vídeo, do post. E isso não é acaso. Na China virou método. Sorvete de gato, fruta que parece de verdade, pãozinho sujo, bebida que solta fumaça. A comida é projetada para ser fotografada primeiro e comida depois. O sabor virou detalhe; o visual virou o produto.
O palco gigante do Douyin

Para entender o tamanho disso, basta olhar onde acontece. O Douyin, a versão chinesa do TikTok, tem mais de 600 milhões de pessoas usando todos os dias, número anunciado pela ByteDance e citado desde 2020. Não é por mês, é por dia. Um vídeo certo na hora certa coloca um pratinho de rua na frente de centenas de milhões de pessoas em horas.
O Xiaohongshu, o app que decide onde comer

Junto vem outro gigante, o Xiaohongshu, com mais de 300 milhões de usuários por mês, a maioria mulheres jovens. É o app onde as pessoas pesquisam onde comer e para onde viajar antes de sair de casa. É lá que uma barraca de rua desconhecida vira destino nacional da noite para o dia, no boca a boca digital.
A peregrinação por um prato

Os chineses têm até uma palavra para isso: daka, algo como bater o ponto. Você vai ao lugar da moda, fotografa, posta e prova que esteve lá. O registro virou mais importante que o próprio lugar. Pratos antes desconhecidos, como o malatang da cidade de Tianshui, viraram fenômeno e levaram gente a atravessar o país só por causa dos vídeos.
O produto é a atenção

A virada de chave é essa: a comida não precisa só ser gostosa, precisa ser diferente o bastante para você querer mostrar. A propaganda não é paga, é o próprio cliente postando de graça para os amigos. A economia de influência chinesa já valia dezenas de bilhões de dólares anos atrás, e a comida virou parte central dela. O negócio não vende sabor, vende experiência para a rede social.
Resumo em pontos
- O sorvete hiper-realista em formato de cachorro virou febre por volta de 2018 (origem em Taiwan), e virou símbolo da comida feita para ser fotografada.
- O Douyin, o TikTok chinês, tem mais de 600 milhões de usuários ativos por dia, um palco gigante para qualquer comida viralizar.
- O Xiaohongshu, com mais de 300 milhões de usuários por mês, é onde os chineses decidem onde comer e para onde viajar.
- A cultura do daka (check-in) tornou o registro mais importante que o lugar: a comida é fotografada primeiro e comida depois.
- A economia de influência chinesa já valia dezenas de bilhões de dólares; a comida virou marketing, e o cliente virou a propaganda gratuita.
Fontes
The World of Chinese (cultura do daka e da comida wanghong) e Fox News (2018, sobre o sorvete de cachorro de Kaohsiung).
CNBC (2020, Douyin com 600 milhões de usuários diários) e dados públicos do Xiaohongshu (mais de 300 milhões de usuários mensais).
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