É difícil imaginar hoje, mas há poucas décadas a China era um dos países mais pobres do mundo. Em 1980, o PIB por pessoa era de cerca de 195 dólares no ano inteiro, mais baixo que quase todo país africano. O que mudou foi uma sequência de escolhas: a reforma e abertura de Deng Xiaoping em 1978, as Zonas Econômicas Especiais a partir de 1980, uma aposta pesada em exportação, infraestrutura e, mais recentemente, tecnologia. O resultado é a maior redução de pobreza da história. Mas a história completa tem dois lados, e vale olhar os dois sem idealizar nem demonizar.

Os números

  • US$ 195 — PIB por pessoa na China em 1980, no ano inteiro, um dos mais baixos do mundo (Banco Mundial)
  • 800 milhões — de pessoas tiradas da pobreza extrema na China desde 1978, segundo o Banco Mundial
  • 48 mil km — de trem-bala no fim de 2024, a maior rede do mundo, cerca de 70% de todo o total global
  • 2010 — ano em que a China passou o Japão e virou a 2ª maior economia do mundo

O ponto de partida: um dos países mais pobres do mundo

O ponto de partida: um dos países mais pobres do mundo
Crédito: Acervo

É importante começar pela base real. Em 1980, o PIB por pessoa na China era de cerca de 195 dólares no ano inteiro, um dos números mais baixos do planeta e mais baixo que quase todo país da África naquele momento, segundo dados do Banco Mundial. Os números de 1950 e 1960 são ainda mais distorcidos pela fome do Grande Salto Adiante, por isso o dado mais sólido e honesto de citar é o de 1980. A China não era só pobre no papel: era pobreza com fome de verdade, com centenas de milhões de pessoas no campo sem comida garantida.

1978: a reforma de Deng Xiaoping muda tudo

1978: a reforma de Deng Xiaoping muda tudo
Crédito: Acervo

Em dezembro de 1978, na Terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista, Deng Xiaoping lançou o que ficou conhecido como reforma e abertura. A ideia era radical para um país comunista: deixar entrar mercado, empresa privada, lucro e capital estrangeiro, de forma controlada. Deng resumiu a lógica pragmática numa frase famosa, a de que não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace o rato. Foi o pontapé de toda a transformação que veio depois.

Shenzhen, 1980: o laboratório do capitalismo chinês

Shenzhen, 1980: o laboratório do capitalismo chinês
Crédito: Acervo

Em 26 de maio de 1980, a China transformou uma cidade pequena na fronteira com Hong Kong na sua primeira Zona Econômica Especial: Shenzhen. Ali as regras eram diferentes do resto do país, com impostos baixos, abertura a fábricas e a investimento estrangeiro, um pedaço de capitalismo dentro da China. Em 1980 Shenzhen tinha algumas centenas de milhares de habitantes. Hoje é uma megacidade de quase 18 milhões de pessoas e um dos maiores polos de tecnologia do mundo. Esse modelo se espalhou pelo país.

Exportação e infraestrutura: a fábrica do mundo

Exportação e infraestrutura: a fábrica do mundo
Crédito: Acervo

A estratégia central foi exportar. A China abriu fábricas, reduziu custos e passou a produzir para o mundo inteiro, de roupa e brinquedo a eletrônico e maquinário. Em 2009 ela superou a Alemanha e virou a maior exportadora de bens do planeta. Com o dinheiro entrando, veio a infraestrutura em escala difícil de imaginar: a China construiu a maior rede de trem-bala do mundo, cerca de 48 mil quilômetros no fim de 2024, mais ou menos 70% de todo o trem-bala que existe globalmente, além de portos, aeroportos e metrôs.

De fábrica barata a potência de tecnologia

De fábrica barata a potência de tecnologia
Crédito: Acervo

Nas últimas décadas a China deu um passo a mais: deixou de ser só fábrica barata e virou potência de tecnologia. Hoje lidera em carro elétrico, energia solar e drones, e disputa o topo da inteligência artificial com os Estados Unidos. Em 2010 ela já havia superado o Japão e se tornado a segunda maior economia do mundo em valores nominais. O resultado humano mais impressionante de toda essa trajetória vem do Banco Mundial: desde 1978, cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema na China, a maior redução de pobreza da história.

Os dois lados: a ascensão e o custo

Os dois lados: a ascensão e o custo
Crédito: Acervo

A leitura honesta exige mostrar os dois lados. De um lado, é a maior ascensão econômica que o mundo já viu, e isso é fato verificável. Do outro, o custo foi real e segue sendo: uma desigualdade enorme entre o litoral rico e o interior pobre, danos ambientais graves ao longo de décadas de industrialização acelerada, e um controle político e social muito pesado sobre a população, com pouca liberdade de imprensa e de expressão. Força e ferida convivem no mesmo projeto, e contar a virada sem esse lado seria contar pela metade.

Resumo em pontos

  • Em 1980, o PIB por pessoa na China era de cerca de US$ 195 no ano inteiro (Banco Mundial), um dos mais baixos do mundo, mais baixo que quase toda a África; os dados de 1950-60 são distorcidos pela fome do Grande Salto Adiante.
  • Em dezembro de 1978, Deng Xiaoping lançou a reforma e abertura, abrindo a economia a mercado, empresa privada e capital estrangeiro; em 26 de maio de 1980, foi criada a Zona Econômica Especial de Shenzhen.
  • A China apostou em exportação e virou a maior exportadora de bens do mundo em 2009 (superando a Alemanha), e a 2ª maior economia em 2010 (superando o Japão).
  • Segundo o Banco Mundial, cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema na China desde 1978, a maior redução de pobreza da história; o país também construiu a maior rede de trem-bala do mundo, ~48 mil km no fim de 2024.
  • O custo da transformação também foi real: forte desigualdade entre litoral e interior, danos ambientais graves e um controle político e social pesado sobre a população.

Fontes

Banco Mundial sobre PIB per capita de 1980 (~US$ 195, série NY.GDP.PCAP.CD) e sobre os ~800 milhões de pessoas tiradas da pobreza extrema desde 1978 (press release de 01/04/2022 e visão geral da China); registros do Partido Comunista sobre a reforma e abertura de dezembro de 1978 e CGTN sobre a criação da Zona Econômica Especial de Shenzhen em 26/05/1980.

Reuters, Washington Post e NBC sobre a China virar a maior exportadora em 2009; Bloomberg, NBC e Al Jazeera sobre a China virar a 2ª maior economia em 2010; International Railway Journal e o State Council Information Office (SCIO) sobre os ~48 mil km de trem-bala no fim de 2024; CGTN sobre a população de Shenzhen (~17,8 milhões em 2023).

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