Quando você pensa em conhecer a China, Hong Kong costuma ser o caminho mais fácil de começar. É cosmopolita, fala inglês e funciona como ponte entre o Ocidente e o continente. Mas Hong Kong não é uma cidade chinesa qualquer: é uma Região Administrativa Especial, com leis, moeda e imigração próprias, no modelo 'um país, dois sistemas'. Tem o skyline mais famoso do mundo, a melhor comida cantonesa e um dos transportes mais eficientes do planeta. Também é uma das cidades mais caras e mais densas que existem. Neste guia você encontra o essencial pra planejar a viagem: moeda, fronteira, transporte, comida, onde ficar e um roteiro de 2 a 3 dias. Tudo verificado em mais de uma fonte.

Os números

  • — cidade do mundo em número de arranha-céus, com mais de 550 prédios acima de 150 metros
  • 7,8 — dólares de Hong Kong por dólar americano: o câmbio é ancorado desde 1983 numa banda de 7,75 a 7,85
  • 1997 — ano em que Hong Kong voltou à China sob o modelo 'um país, dois sistemas'
  • 1904 — ano em que o bonde de Hong Kong começou a rodar, o transporte público mais antigo da cidade
  • ~7,5 mi — habitantes numa das maiores densidades populacionais do planeta

Um país, dois sistemas

Um país, dois sistemas
Crédito: Acervo

A primeira coisa pra você entender é que Hong Kong é parte da China desde 1997, mas não funciona como o resto do país. É uma Região Administrativa Especial (RAE) sob o modelo 'um país, dois sistemas', previsto na Basic Law por 50 anos. Na prática, isso significa leis próprias, judiciário próprio, economia de mercado aberta e moeda própria. Pequim cuida de defesa e relações exteriores, mas o dia a dia da cidade é governado localmente. Pra você, viajante, o efeito é direto: as regras de entrada, o dinheiro que você usa e até a forma como a internet funciona são diferentes do continente. Trate Hong Kong como uma escala à parte dentro da China, não como mais uma cidade chinesa qualquer.

A moeda é o dólar de Hong Kong, não o yuan

A moeda é o dólar de Hong Kong, não o yuan
Crédito: Acervo

Esse ponto confunde muita gente: em Hong Kong você não usa o yuan (renminbi) do continente, e sim o dólar de Hong Kong (HKD). Desde 1983, a moeda é ancorada ao dólar americano pelo Sistema de Taxa de Câmbio Vinculada, mantida pela autoridade monetária local numa banda estreita entre 7,75 e 7,85 HKD por dólar dos EUA, em torno de 7,8. Isso deixa o câmbio bem estável e fácil de calcular. Cartões internacionais são aceitos em quase todo lugar, mas vale ter algum dinheiro em espécie para mercados, bondes e barracas. Algumas lojas até aceitam yuan, mas costumam dar troco em HKD e com câmbio ruim. O ideal é sacar HKD em caixas eletrônicos ou trocar em casas de câmbio de Tsim Sha Tsui.

Imigração separada do continente

Imigração separada do continente
Crédito: Acervo

Esse é o detalhe que pega muito brasileiro desprevenido: Hong Kong tem imigração separada da China continental. Entrar em Hong Kong e seguir para Pequim, Xangai ou Cantão significa passar por um controle de fronteira formal, com checagem dos dois lados. O departamento de imigração de Hong Kong opera de forma independente, e as regras de visto para o continente seguem a política da China continental, não a de Hong Kong. Para o turista brasileiro, costuma ser possível entrar em Hong Kong por um período de turismo sem visto prévio, mas a entrada no continente normalmente exige visto chinês emitido antes. Confirme sempre as regras atualizadas antes de viajar, porque elas mudam: trate as duas entradas como burocracias diferentes.

O skyline mais famoso do mundo

O skyline mais famoso do mundo
Crédito: Acervo

Hong Kong é a cidade com mais arranha-céus do planeta, com folga. São mais de 550 prédios acima de 150 metros, e mais de mil acima de 100 metros, segundo o Conselho de Prédios Altos e Habitat Urbano. Sanduíchada entre montanhas e mar, com pouquíssima terra plana, a cidade só teve uma saída: crescer pra cima. O resultado é aquela parede de torres iluminadas que você reconhece de qualquer foto. O ponto clássico pra ver tudo é o Victoria Peak, o pico mais alto da ilha de Hong Kong, de onde se enxerga a fileira de arranha-céus sobre o Victoria Harbour, com Kowloon do outro lado. Suba no fim de tarde para pegar a cidade no dia e à noite.

Star Ferry e o Victoria Harbour

Star Ferry e o Victoria Harbour
Crédito: Acervo

O Victoria Harbour é a baía que separa a ilha de Hong Kong de Kowloon e dá à cidade aquele cenário inconfundível. A melhor forma de atravessá-la é a mais barata: o Star Ferry, que liga os dois lados há mais de um século e oferece uma das vistas mais bonitas do mundo por alguns trocados. É uma travessia curta, de poucos minutos, mas que vale fazer ao entardecer, quando as torres começam a acender. Todas as noites, às 20h, acontece o espetáculo de luzes 'A Symphony of Lights', em que os prédios dos dois lados da baía piscam de forma sincronizada. Veja do Star Ferry, da Avenida das Estrelas em Tsim Sha Tsui ou de um terraço alto.

Octopus card, MTR, bonde e ferry

Octopus card, MTR, bonde e ferry
Crédito: Acervo

O transporte público de Hong Kong é uma das coisas que mais impressionam, e a sua melhor amiga vai ser o Octopus card, lançado em 1997. É um cartão único de aproximar-e-pagar que funciona no metrô (o MTR, limpo, rápido e com sinalização em inglês), nos ônibus, nos bondes, nos ferries e até em lojas de conveniência e máquinas. Você carrega uma vez e esquece a catraca. Some a isso o icônico bonde de dois andares, o 'ding ding', que roda na ilha de Hong Kong desde 1904 e é o transporte público mais antigo da cidade, e o próprio Star Ferry. Com Octopus, MTR e bonde, você atravessa a cidade inteira gastando pouco e sem depender de táxi ou aplicativo.

Cantonês, inglês e por que é mais fácil que o continente

Cantonês, inglês e por que é mais fácil que o continente
Crédito: Acervo

Aqui está uma das maiores vantagens de Hong Kong pra quem nunca foi à Ásia: o idioma. Cantonês e inglês são as línguas oficiais, herança do período em que a cidade foi colônia britânica até 1997. Placas, menus, estações de metrô e avisos costumam estar em inglês, e boa parte das pessoas em áreas turísticas e de serviço fala pelo menos o básico. Isso torna a vida do estrangeiro muito mais simples do que no continente, onde o mandarim domina e o inglês é bem menos comum. Você não precisa falar cantonês para se virar, mas aprender um 'm̀h'gōi' (obrigado, ao pedir algo) ou 'dōjeh' (obrigado, por um presente) rende sorrisos. O cantonês é diferente do mandarim falado em Pequim.

Dim sum e a cultura cantonesa de comida

Dim sum e a cultura cantonesa de comida
Crédito: Acervo

Comer é metade da viagem em Hong Kong, uma das capitais mundiais da cozinha cantonesa. A tradição local que você não pode perder é o yum cha: tomar chá acompanhado de dim sum, aquelas pequenas porções servidas em cestas de bambu, pensadas para serem compartilhadas. Peça har gow (dumpling de camarão), siu mai, char siu bao (pão recheado de porco) e egg tart de sobremesa. Faça pelo menos um yum cha de manhã ou no início da tarde, que é o horário tradicional. Hong Kong tem desde casas premiadas pelo Guia Michelin até barracas de rua e os 'cha chaan teng', cafés locais onde se come barato e bem. Não fuja da comida de rua: é onde mora boa parte do sabor da cidade.

Central, Tsim Sha Tsui e Mong Kok: onde ficar

Central, Tsim Sha Tsui e Mong Kok: onde ficar
Crédito: Acervo

Hong Kong se divide, grosso modo, entre a ilha de Hong Kong e a península de Kowloon, e saber onde se hospedar facilita tudo. Central, na ilha, é o coração financeiro, com bares, restaurantes e o acesso ao Victoria Peak e ao bonde. Tsim Sha Tsui, na ponta de Kowloon, é a escolha mais turística: fica em frente ao skyline, perto do Star Ferry, de museus e da Avenida das Estrelas. Mong Kok, mais ao norte de Kowloon, é o lado popular e elétrico, com mercados, neon e uma das maiores densidades populacionais do mundo. Pra primeira viagem, hospede-se em Tsim Sha Tsui ou Central: você fica perto de tudo e a poucos minutos de metrô dos bairros mais animados.

Mercados, neon e vida noturna

Mercados, neon e vida noturna
Crédito: Acervo

À noite, Hong Kong troca de pele. Em Mong Kok ficam os mercados clássicos: o Ladies' Market, de roupas e bugigangas, o Temple Street Night Market, com comida e barracas, e mercados temáticos de flores, pássaros e tênis. É onde você vê o lado mais caótico e fotogênico da cidade, sob letreiros de neon. Para beber e sair, Lan Kwai Fong e Soho, em Central, concentram os bares e baladas, com público local e estrangeiro. Quem prefere algo mais tranquilo encontra rooftops com vista para a baía. Leve dinheiro em espécie para os mercados, pechinche com bom humor (faz parte) e fique atento aos pertences nas ruas mais cheias. A cidade é segura, mas movimentada.

Combinando Hong Kong com o continente: Shenzhen ao lado

Combinando Hong Kong com o continente: Shenzhen ao lado
Crédito: Acervo

Uma das grandes sacadas de viajar para Hong Kong é que ela faz fronteira terrestre com Shenzhen, uma das cidades mais modernas da China continental, do outro lado do rio. Dá para cruzar de metrô ou trem até os postos de fronteira (como Lo Wu e Lok Ma Chau) em cerca de uma hora a partir do centro, passar pela imigração e estar em outra cidade, com outro sistema, outra moeda e outro idioma principal. Há ainda o trem de alta velocidade que liga Hong Kong a Cantão e ao resto do continente em pouco tempo. Mas lembre: para entrar no continente você quase sempre precisa de visto chinês emitido com antecedência. Planeje o visto antes de viajar se quiser combinar as duas pontas.

Melhor época, clima e roteiro de 2 a 3 dias

Melhor época, clima e roteiro de 2 a 3 dias
Crédito: Acervo

A melhor época para visitar Hong Kong vai do outono ao começo do inverno, mais ou menos de outubro a início de dezembro, quando o tempo fica mais seco e ameno. O verão (junho a setembro) é quente, úmido e coincide com a temporada de tufões. Um roteiro enxuto: no dia 1, suba o Victoria Peak no fim de tarde, atravesse de Star Ferry e veja o show de luzes das 20h. No dia 2, faça um yum cha de manhã, ande de bonde pela ilha e explore Central, Soho e os mercados de Mong Kok à noite. Sobrando um dia 3, vá ao Tian Tan (o Grande Buda de bronze) na ilha de Lantau, com o teleférico Ngong Ping, ou bata um pulo em Shenzhen se já tiver o visto.

Os dois lados de Hong Kong (com honestidade)

Os dois lados de Hong Kong (com honestidade)
Crédito: Acervo

Não dá pra fazer um guia honesto sem mostrar os dois lados. Hong Kong é, de longe, a porta de entrada mais fácil e cosmopolita pra quem quer começar a conhecer a China: fala inglês, tem transporte impecável, comida excelente e segurança. Mas tem o outro lado: é uma das cidades mais caras do mundo, com hospedagem salgada e espaços minúsculos, e uma das de maior densidade populacional do planeta, com bairros inteiros empilhados em torres altas e estreitas. Bairros como Mong Kok estão entre os lugares mais densos da Terra. Nada disso tira o brilho da viagem; só significa que você deve ir com o orçamento planejado e expectativa de uma cidade vertical e intensa. Vale muito a pena.

Resumo em pontos

  • Hong Kong é uma Região Administrativa Especial da China ('um país, dois sistemas'), com leis, judiciário e moeda próprios desde 1997.
  • A moeda é o dólar de Hong Kong (HKD), não o yuan; é ancorada ao dólar americano em torno de 7,8 desde 1983. Leve cartão e algum dinheiro em espécie.
  • A imigração é separada do continente: ir de Hong Kong à China continental passa por controle de fronteira nos dois lados, e o continente quase sempre exige visto chinês emitido antes.
  • É a cidade com mais arranha-céus do mundo; suba o Victoria Peak no fim de tarde para ver o skyline sobre o Victoria Harbour.
  • Atravesse de Star Ferry e veja o show de luzes 'A Symphony of Lights' às 20h, todas as noites.
  • Pegue um Octopus card logo que chegar: ele resolve metrô (MTR), ônibus, bonde e ferry com um cartão só.
  • Ande no 'ding ding', o bonde de dois andares que roda na ilha desde 1904, o transporte mais antigo da cidade.
  • Cantonês e inglês são oficiais; placas e menus em inglês tornam tudo mais fácil que no continente, onde domina o mandarim.
  • Faça um yum cha: dim sum em cestas de bambu, no início do dia. Não fuja da comida de rua e dos 'cha chaan teng'.
  • Hospede-se em Tsim Sha Tsui ou Central na primeira viagem; explore os mercados e o neon de Mong Kok à noite.
  • Shenzhen fica do outro lado da fronteira: dá para combinar as duas pontas, mas planeje o visto chinês antes.
  • Melhor época: outono a início do inverno (out a dez). É uma das cidades mais caras e densas do mundo, então vá com o orçamento planejado.

Fontes

Hong Kong Monetary Authority e Wikipedia ('Linked exchange rate system in Hong Kong' / 'Hong Kong dollar') — dólar de Hong Kong ancorado ao dólar dos EUA desde 1983, banda de 7,75 a 7,85 por USD (em torno de 7,8).

Council on Tall Buildings and Urban Habitat, Time Out Hong Kong e Newsweek — Hong Kong é a cidade com mais arranha-céus do mundo, com mais de 550 prédios acima de 150 m e mais de mil acima de 100 m.

Hong Kong Tourism Board (Discover Hong Kong) e Wikipedia ('Hong Kong Tramways') — bonde 'ding ding' em operação desde 1904, transporte público mais antigo da cidade; Star Ferry cruzando o Victoria Harbour há mais de um século.

Federal Foreign Office (Alemanha), BrandHK e Wikipedia ('One country, two systems' / 'Languages of Hong Kong') — Hong Kong como RAE da China desde 1997, imigração e leis próprias, cantonês e inglês como idiomas oficiais.

Social Indicators of Hong Kong e Culture Trip — uma das maiores densidades populacionais do mundo, com Mong Kok entre os lugares mais densos da Terra; Michelin Guide e HKTB — tradição do dim sum / yum cha cantonês.

Quer ir além? Veja o dossiê completo deste tema em destinochina.com/china/china-hong-kong e conheça a consultoria da Destino China para importar com segurança.