A churrascaria brasileira lotada de chineses e a carne que liga Brasil e China

Existe uma churrascaria brasileira de rodízio lotada de chineses na China. Parece curiosidade, mas é a ponta visível de uma relação enorme. Para muito chinês, o Brasil é antes de tudo o país da carne bovina boa, e isso tem lastro no comércio: o Brasil é o maior fornecedor de carne bovina da China, e a China é o maior comprador da carne brasileira. São fatos públicos, com números e fontes. Tem orgulho real nessa história, e também um ponto de atenção que vale olhar com calma.
Os números
- 1998 — ano em que a churrascaria brasileira Latina abriu em Shanghai; hoje são mais de 10 unidades na China
- 1,33 milhão t — de carne bovina que a China comprou do Brasil em 2024, 54,4% de toda a exportação brasileira
- ~50% — das importações chinesas de carne bovina vêm do Brasil, o maior fornecedor da China
- ~2,9 milhões t — recorde de carne bovina exportada pelo Brasil em 2024, alta de cerca de 26% em um ano
Uma churrascaria brasileira lotada de chineses

A Latina é uma churrascaria de rodízio brasileiro que abriu em Shanghai em 1998, no Hotel Jinjiang, e foi um dos primeiros restaurantes ocidentais da cidade. O fundador, Jun Taichi, é um nipo-brasileiro criado no Brasil. O modelo é o rodízio que o brasileiro conhece: garçom passando de mesa em mesa com a peça na espada, picanha, fraldinha, fichinha pro verde e pro vermelho. Hoje são mais de 10 unidades, sendo cinco só em Shanghai (Tongren Lu, Lujiazui, Ala Town, Jinqiao e Chamtime Plaza), além de Shenzhen e Pequim. A filial de Lujiazui chegou a ganhar o selo Must Eat do Dianping em 2023.
Por que o churrasco brasileiro pega na China

O churrasco brasileiro não virou febre por acaso. Para muito consumidor chinês, o Brasil é associado diretamente à carne bovina de boa qualidade, e essa imagem nasce de um comércio gigante e crescente. A experiência do rodízio, com carne sendo cortada na frente do cliente e servida à vontade, casou com um público chinês cada vez mais aberto a cozinhas estrangeiras e disposto a pagar por experiência. O churrasco virou, na prática, uma vitrine do produto brasileiro mais conhecido na China.
A China é o maior comprador da carne brasileira

Aqui está o número que muda tudo. Em 2024 a China comprou cerca de 1,33 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil, o equivalente a 54,4% de toda a carne bovina exportada pelo país naquele ano. Ou seja, mais da metade da carne bovina que o Brasil manda para o mundo vai para um único destino: a China. O valor desse fluxo fica na casa dos bilhões de dólares por ano, entre cerca de US$ 4,8 e US$ 6 bilhões, dependendo da fonte e do recorte.
O Brasil é o maior fornecedor de carne da China

A relação é de mão dupla. Do lado chinês, o Brasil é o maior fornecedor de carne bovina: cerca de metade de toda a carne bovina importada pela China sai do boi brasileiro. Não é um vendedor entre muitos, é o principal. Isso significa que o boi criado no Brasil ajuda a abastecer a mesa de uma das maiores populações do mundo, e que decisões sanitárias ou comerciais entre os dois países mexem diretamente com o setor de carne dos dois lados.
O boom das exportações de carne

Esse vínculo só cresceu. Em 2024 o Brasil bateu recorde de exportação de carne bovina, com cerca de 2,89 milhões de toneladas, uma alta de aproximadamente 26% em relação a 2023, movimentando algo perto de US$ 12,8 bilhões no total da carne bovina. A China foi o motor desse crescimento: em certos meses de 2024 o país chegou a comprar por volta de 95 mil toneladas de carne bovina brasileira por mês. O apetite chinês virou peça central da pecuária brasileira.
Os dois lados: orgulho e dependência

Para ser honesto, há dois lados na mesma mesa. De um lado, ter o boi brasileiro conquistando o paladar chinês e abrindo um mercado de bilhões é motivo de orgulho legítimo, gera renda, emprego e prestígio para o produto nacional. De outro, concentrar mais da metade das exportações de carne bovina em um único comprador gigante é poder e risco ao mesmo tempo: qualquer oscilação na demanda da China, embargo sanitário ou mudança de política mexe forte no preço e na renda do setor aqui. A churrascaria lotada é uma boa notícia, mas vale comemorar de olho aberto.
Resumo em pontos
- A Latina, churrascaria de rodízio brasileiro, abriu em Shanghai em 1998 e hoje tem mais de 10 unidades na China (cinco em Shanghai, mais Shenzhen e Pequim), segundo reportagens locais (NOMFLUENCE/Rachel Gouk, SmartShanghai).
- Para muitos chineses, o Brasil é associado à carne bovina de qualidade, e o churrasco/rodízio virou uma experiência popular e em expansão na China.
- Em 2024 a China comprou cerca de 1,33 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil, 54,4% de toda a exportação brasileira de carne bovina, sendo o maior destino (ABIEC via Rio Times/Euromeatnews).
- O Brasil é o maior fornecedor de carne bovina da China, respondendo por cerca de metade das importações chinesas de carne bovina (ABIEC/DatamarNews, Rio Times).
- Em 2024 o Brasil bateu recorde de exportação de carne bovina, cerca de 2,89 milhões de toneladas (+26% vs 2023), e em certos meses a China comprou por volta de 95 mil toneladas mensais (Euromeatnews, MercoPress).
Fontes
NOMFLUENCE (Rachel Gouk), SmartShanghai e That's Shanghai (Latina Brazilian Steakhouse: fundada em 1998 em Shanghai, mais de 10 unidades na China, expansão para Shenzhen e Pequim, selo Must Eat do Dianping em 2023).
Rio Times, Euromeatnews, ABIEC/DatamarNews e MercoPress, com dados originais da ABIEC e do Comex Stat (China = maior destino da carne bovina brasileira: ~1,33 milhão t e 54,4% das exportações em 2024, entre US$ 4,8 e 6 bilhões; Brasil = maior fornecedor da China, ~50% das importações; recorde de ~2,89 milhões t exportadas em 2024, +26%; ~95 mil t/mês para a China em parte de 2024).
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