Quando a gente fala do futuro, costuma pensar em algo distante. Só que boa parte desse futuro já é rotina na China. Carro elétrico como metade das vendas, pagamento por celular em qualquer lugar, fábricas cheias de robôs e trem-bala cruzando o país. Olhar pra isso não é se diminuir. É enxergar com antecedência o caminho que vários países, inclusive o Brasil, estão começando a trilhar. E o Brasil tem seus próprios trunfos, como o Pix, que o mundo hoje copia. São fatos públicos, com números e fontes, comparando os dois países com calma e sem torcida.

Os números

  • ~48% x 6,5% — carros novos elétricos na China x no Brasil em 2024 (NEV China; BEV Brasil)
  • +85% — dos consumidores na China pagam por celular, mais de 90% via QR Code (2023)
  • 470 x 162 — robôs por 10 mil trabalhadores na China x média mundial (IFR, 2023)
  • ~160 milhões — de brasileiros já usam o Pix, referência mundial de pagamento instantâneo (2024)

Carro elétrico: quase metade das vendas na China

Carro elétrico: quase metade das vendas na China
Crédito: Acervo

Em 2024, os carros de nova energia (elétricos puros e híbridos plug-in) chegaram a cerca de 48% das vendas de carros novos na China no ano, passando de 50% em vários meses do segundo semestre. No Brasil, no mesmo ano, o elétrico puro foi 6,5% das vendas, segundo a IEA. É uma diferença de quase oito vezes. E tem um detalhe importante: mais de 85% dos elétricos vendidos no Brasil são importados, boa parte vinda da própria China. Ou seja, o futuro chega aqui, mas ainda chega de fora.

Pagamento mobile: a China sem carteira, o Brasil com o Pix

Pagamento mobile: a China sem carteira, o Brasil com o Pix
Crédito: Acervo

Na China, pagar pelo celular é o normal absoluto. Mais de 85% dos consumidores usam pagamento por aplicativo, e mais de 90% dessas transações são feitas por QR Code, em feiras, táxis e padarias. A China deu esse salto há quase uma década. Só que aqui o Brasil não ficou pra trás: o Pix levou cerca de 160 milhões de pessoas ao pagamento instantâneo e gratuito em poucos anos, virando o meio de pagamento mais usado do país, com perto de 46% das transações em 2024. É o caso em que o futuro chegou ao Brasil ao mesmo tempo, ou até antes, que ao resto do mundo.

O Pix é referência mundial, com selo do FMI

O Pix é referência mundial, com selo do FMI
Crédito: Acervo

Não é exagero patriótico: o Pix é estudado lá fora como modelo. Em 2023, o Fundo Monetário Internacional publicou um relatório com o título 'Pix: Brazil's Successful Instant Payment System', tratando o sistema como caso de sucesso. O Banco Central do Brasil descreve o Pix como um dos sistemas de pagamento instantâneo mais usados do mundo, e o BIS o cita em seus trabalhos sobre pagamentos rápidos, incluindo planos de integração internacional. Nessa área, é a China e o resto do mundo que olham para o que o Brasil construiu.

Comércio digital e live commerce

Comércio digital e live commerce
Crédito: Acervo

Na China, comprar ao vivo durante uma transmissão virou hábito de massa. O live commerce movimentou cerca de 4,9 trilhões de yuans em 2023, perto de 32% de todo o comércio online do país. O e-commerce já representa cerca de 27% de todo o varejo chinês (2024). No Brasil, o online ainda gira em torno de 9% a 13% do varejo. A diferença é grande, mas o movimento é o mesmo: a tendência que já é maioria por lá é a direção pra onde o varejo brasileiro caminha.

Automação industrial e logística

Automação industrial e logística
Crédito: Acervo

A China tinha 470 robôs industriais para cada 10 mil trabalhadores em 2023, contra uma média mundial de 162, ultrapassando Alemanha e Japão em densidade. Em 2024, instalou sozinha 54% de todos os robôs industriais do planeta. Isso transborda para a logística: galpões com robôs separando, empacotando e despachando pedidos com mínima presença humana. O Brasil tem densidade de robôs muito baixa em comparação, o que mostra o tamanho da automação que ainda está por vir por aqui.

Infraestrutura e a leitura equilibrada

Infraestrutura e a leitura equilibrada
Crédito: Acervo

Em velocidade de infraestrutura, a distância é visível: a China tem cerca de 48 mil quilômetros de trem-bala (2024), enquanto o Brasil ainda tem zero. E em 2020 a China ergueu o hospital Huoshenshan, com mil leitos, em cerca de dez dias. A leitura justa é esta: a China está claramente à frente em carro elétrico, automação e infraestrutura, mas o Brasil lidera com o Pix, que é referência mundial. Não é melhor nem pior, é diferente. Olhar a China com atenção, sem inveja e sem complexo de vira-lata, é enxergar com antecedência parte do futuro que vem chegando ao Brasil.

Resumo em pontos

  • Em 2024, cerca de 48% dos carros novos vendidos na China eram de nova energia (passando de 50% em meses do fim do ano), contra 6,5% de elétricos puros no Brasil; mais de 85% dos elétricos vendidos no Brasil são importados, boa parte da China (IEA Global EV Outlook 2025, CPCA, ABVE).
  • Na China, mais de 85% dos consumidores usam pagamento por celular e mais de 90% dessas transações são por QR Code (GlobalData 2023, Daxue Consulting).
  • O Pix chegou a cerca de 160 milhões de brasileiros (perto de 76% da população) em 2024 e a aproximadamente 46% das transações, sendo estudado pelo FMI como sistema de pagamento instantâneo de sucesso (Banco Central do Brasil, FMI 2023, Matera).
  • A densidade de robôs na China foi de 470 por 10 mil trabalhadores em 2023, contra média mundial de 162, e a China instalou 54% de todos os robôs industriais do mundo em 2024 (IFR, World Robotics 2024).
  • A China tem cerca de 48 mil km de trem-bala (2024) contra zero no Brasil, e ergueu um hospital de mil leitos em dez dias em 2020 (Huoshenshan); o e-commerce é cerca de 27% do varejo chinês (2024) contra 9-13% no Brasil (Xinhua/Wikipedia, NBC/CBC, CAICT/Yicai, Statista).

Fontes

IEA Global EV Outlook 2025 (China ~48% de carros novos elétricos / NEV em 2024, passando de 50% em meses; Brasil 6,5% de elétricos puros; mais de 85% dos elétricos do Brasil importados, boa parte da China); CPCA via CnEVPost e ABVE via MarkLines/Latam Mobility (penetração mensal e dados Brasil). GlobalData 2023 e Daxue Consulting (China: mais de 85% dos consumidores em pagamento mobile, mais de 90% via QR Code). Banco Central do Brasil, FMI 'Pix: Brazil's Successful Instant Payment System' (2023) e Matera Pix by the Numbers Q4 2024 (~160 milhões de usuários, ~46% das transações, Pix como referência mundial). CAICT via Yicai Global (e-commerce ~27% do varejo chinês em 2024) e Statista (live commerce ~4,9 tri de yuans em 2023, ~32% do online; varejo online Brasil ~9-13%). IFR World Robotics 2024 (densidade de robôs China 470 x média mundial 162 em 2023; 54% das instalações globais em 2024). Xinhua e Wikipedia (~48 mil km de trem-bala na China em 2024); NBC News e CBC News (hospital Huoshenshan de mil leitos em ~10 dias, 2020).

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