Enquanto no Brasil o TikTok é dancinha, na China o Douyin virou uma máquina de vender que movimenta trilhões — e formar vendedor virou estratégia nacional, com faculdade que ensina a vender ao vivo. Aqui estão os números, os recordes e o lado B, com as fontes.

Os números

  • Douyin — o 'TikTok' da China (mesma dona, a ByteDance), com loja embutida: você assiste, clica e compra sem sair do app
  • 4,9 tri — de yuan (~US$ 680 bi) movimentados pelo comércio ao vivo em 2023 — 10x mais que em 2019
  • US$ 2,9 bi — o que Li Jiaqi (o 'Rei do Batom') vendeu numa ÚNICA live de 9h (460 milhões de espectadores); já vendeu 15 mil batons em 5 min
  • 36 mi — empregos gerados só pelo Douyin no setor (uns 20 milhões são hosts) — 'vendedor ao vivo' virou profissão oficial
  • 765 mi — de chineses já compraram por transmissão ao vivo (71% dos internautas do país)
  • faculdade — o Yiwu College foi a 1ª do mundo a ter 'vender ao vivo' como curso (2017), com estúdios e parceria com a Alibaba

Não é dancinha: é o maior varejo ao vivo do mundo

Não é dancinha: é o maior varejo ao vivo do mundo
Crédito: App Douyin em uso / Wikimedia Commons

Na China, o TikTok não existe com esse nome — o app irmão chama Douyin (抖音), da mesma dona (a ByteDance), mas com e-commerce embutido, e a atividade de vender ao vivo se chama zhibo daihuo. O tamanho é absurdo: o comércio ao vivo movimentou cerca de 4,9 trilhões de yuan em 2023 (uns US$ 680 bilhões), contra 420 bilhões em 2019, um crescimento de mais de dez vezes em quatro anos. E só o Douyin já é um gigante: em 2024 sua operação de e-commerce vendeu cerca de 3,5 trilhões de yuan (alta de ~30%), a terceira maior da China.

Um host vende bilhões numa noite

Um host vende bilhões numa noite
Crédito: Comércio popular na China / Wikimedia Commons

Um único vendedor faz o que uma rede inteira faria: Li Jiaqi, o 'Rei do Batom', vendeu cerca de 21,5 bilhões de yuan (US$ 2,9 bilhões) em uma única transmissão de pré-venda do Singles' Day, uma live de cerca de 9 horas que atraiu 460 milhões de espectadores, e em outra ocasião vendeu 15 mil batons em 5 minutos. Isso não é sorte nem carisma solto: é técnica de venda treinada, com roteiro, gatilho e ritmo — e é justamente aí que a China fez algo diferente do resto do mundo.

Virou profissão oficial — e do país inteiro

Virou profissão oficial — e do país inteiro
Crédito: Mercado de Yiwu / Wikimedia Commons

'Vendedor de transmissão ao vivo' virou profissão oficial reconhecida pelo Estado chinês, e só o Douyin diz ter gerado 36 milhões de empregos no setor de vídeo e transmissão (cerca de 20 milhões deles são criadores e hosts). E o público é o país inteiro: até junho de 2023, cerca de 765 milhões de chineses já compravam por transmissão ao vivo, 71% de todos os internautas do país. Comprar assistindo alguém vender virou o jeito normal de comprar.

O pulo do gato: tem faculdade pra isso

O pulo do gato: tem faculdade pra isso
Crédito: Sala de aula em universidade chinesa / Wikimedia Commons

Aqui está o coração da história: virou escola. O Yiwu Industrial & Commercial College, em Zhejiang, foi a primeira faculdade do mundo a oferecer 'live-commerce' como área de estudo, em 2017, com cinco estúdios de transmissão para os alunos praticarem e um programa conjunto com a Alibaba; e em Zhejiang quem passa nos exames do setor recebe um certificado reconhecido pelo governo. Não é uma escola só: instituições e empresas em Yiwu, Harbin e Chongqing se juntaram para formar esse talento. A China transformou vender numa habilidade que se ensina e se certifica.

O lado B (a nuance honesta)

O lado B (a nuance honesta)
Crédito: Ponto de retirada de e-commerce em loja na China / Wikimedia Commons

É preciso honestidade: também há bolha e burnout. Existem 'fábricas de influenciador' (as agências MCN, quase 30 mil registradas) que empilham estúdios como galpões, com turnos puxados; é o contraponto do sonho viral. E o Estado aperta duramente: a 'rainha das lives', Viya, foi multada em 1,34 bilhão de yuan (US$ 210 milhões) por sonegação em 2021 e banida de um dia para o outro. Ou seja: oportunidade gigante de um lado, pressão e regulação do outro. Mas a lição central para o Brasil fica de pé — a China tratou a venda como competência estratégica, treinável e formada em escala.

Resumo em pontos

  • Na China o TikTok é o Douyin (ByteDance) com loja embutida. Comércio ao vivo: ~4,9 tri de yuan em 2023 (10x mais que 2019); Douyin ~3,5 tri em 2024 (3º maior e-commerce).
  • Li Jiaqi ('Rei do Batom') vendeu ~US$ 2,9 bi numa live de 9h (460 mi de espectadores); 15 mil batons em 5 min.
  • 'Vendedor ao vivo' virou profissão oficial; Douyin gerou 36 mi de empregos (~20 mi hosts); 765 mi de chineses já compraram por live (71% dos internautas).
  • Escola: Yiwu College foi a 1ª do mundo com curso de live-commerce (2017), estúdios + Alibaba, certificado do governo. Yiwu, Harbin e Chongqing formam o talento.
  • Nuance honesta: 'fábricas de influenciador' (MCN) e burnout; a 'rainha das lives' Viya foi multada em US$ 210 mi por sonegação (2021) e banida.

Fontes

Statista e ECDB: GMV do live-commerce (~4,9 tri de yuan em 2023, ~10x vs 2019) e 765 mi de compradores. 36Kr: GMV do Douyin (~3,5 tri em 2024). The Lowdown e SCMP: recordes de Li Jiaqi (US$ 2,9 bi numa live; 15 mil batons em 5 min). SCMP: 'live-streamer' como profissão oficial e os 36 mi de empregos do Douyin. CGTN e China Daily: a faculdade de Yiwu (2017) e a formação em Harbin/Chongqing. PRNewswire/Alizila: Singles' Day 2023. Surface Mag e CNN: 'fábricas de influenciador' (MCN) e a multa da Viya.

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