Hong Kong é a escala mais comum do empresário brasileiro a caminho das fábricas do sul da China, e quase ninguém repara no que está pisando — ou melhor, no que não está. A cidade tem um segundo nível construído acima da rua, um sistema contínuo de passarelas cobertas que liga hotéis, shoppings, estações e escritórios. É possível sair do hotel, trabalhar, treinar, jantar e voltar sem tocar o asfalto uma única vez. O mais interessante para quem faz negócio não é a engenharia: é a razão pela qual isso existe. O sistema não nasceu de um plano urbanístico. Nasceu de uma decisão comercial de uma incorporadora, e mudou o preço do metro quadrado de uma cidade inteira.

Os números

  • 7,5 milhões — Habitantes de Hong Kong em 1.114 km², a quarta região mais densa do mundo
  • anos 1960 — Década em que a Hongkong Land ligou um hotel de luxo ao segundo andar do shopping vizinho
  • 1993 — Ano de inauguração da escada rolante Central–Mid-Levels
  • 800 m — Extensão do sistema de escadas rolantes, vencendo mais de 135 metros de desnível
  • 2º lugar — Posição da escada de Hong Kong no ranking mundial; a maior fica em Chongqing, na China continental

Uma segunda cidade acima da rua

Uma segunda cidade acima da rua
Crédito: Wikimedia Commons

O pedestre circula de passarela em shopping e de shopping em passarela, três ou quatro andares acima do asfalto, por um percurso coberto, climatizado e sem cruzamento com automóveis. Para quem vive e trabalha nesse nível, a rua deixou de ser referência. Três arquitetos — Adam Frampton, Jonathan Solomon e Clara Wong — passaram anos mapeando essa malha e publicaram o resultado no livro Cities Without Ground, cujos mapas simplesmente não desenham as ruas.

Por que aconteceu justamente ali

Por que aconteceu justamente ali
Crédito: Wikimedia Commons

A geografia forçou a solução. Hong Kong tem montanha de um lado e mar do outro, com pouquíssimo terreno plano disponível, e abriga 7,5 milhões de pessoas em 1.114 quilômetros quadrados — a quarta região mais densamente povoada do mundo. Sem espaço para se espalhar horizontalmente, a circulação subiu.

O começo foi comercial, não urbanístico

O começo foi comercial, não urbanístico
Crédito: Wikimedia Commons

Aqui está o ponto que interessa a quem faz negócio. Nos anos 1960, a incorporadora Hongkong Land construiu uma passarela elevada ligando um hotel de luxo ao segundo andar do shopping vizinho. O objetivo não era mobilidade urbana, era circulação de clientes. Deu certo, e a solução virou fórmula: cada nova passarela valorizava os andares superiores e despejava o pedestre dentro das lojas. Hoje a Hongkong Land é a maior proprietária de imóveis comerciais da região central da cidade.

Depois o poder público entrou no jogo

Depois o poder público entrou no jogo
Crédito: Wikimedia Commons

Constatado que o modelo funcionava, o governo passou a integrar metrô, balsas e terminais de transporte a esse mesmo nível suspenso. O que começou como uma ponte entre dois edifícios privados acabou incorporado à infraestrutura pública de circulação, formando uma rede contínua construída aos pedaços, por proprietários diferentes.

A escada rolante que virou transporte público

A escada rolante que virou transporte público
Crédito: Wikimedia Commons

Em 1993 foi inaugurado o sistema Central–Mid-Levels: mais de 800 metros de escadas rolantes cobertas, vencendo mais de 135 metros de desnível morro acima. Moradores da parte alta a utilizam para ir ao trabalho como se pega um ônibus. Curiosamente, ela já não é a maior do mundo: o posto pertence hoje a um sistema em Chongqing, na China continental.

O detalhe que muda tudo — e a lição

O detalhe que muda tudo — e a lição
Crédito: Wikimedia Commons

Boa parte desse chão suspenso é propriedade privada. A cidade que a população usa o dia inteiro pertence, em pedaços, a incorporadoras e operadores de shopping, o que redefine a fronteira entre espaço público e privado. Para quem compra e vende, a lição é direta e vale muito além de Hong Kong: quem controla o caminho controla o fluxo. Ali, um proprietário conseguiu reorganizar a circulação de uma cidade inteira em torno das próprias lojas — e o resto seguiu atrás.

Resumo em pontos

  • Hong Kong tem uma rede contínua de passarelas cobertas três ou quatro andares acima da rua.
  • O livro Cities Without Ground, de Frampton, Solomon e Wong, mapeou a malha sem desenhar as ruas.
  • São 7,5 milhões de habitantes em 1.114 km², a quarta região mais densa do mundo.
  • O sistema começou nos anos 1960 como jogada comercial da incorporadora Hongkong Land.
  • Cada passarela nova valorizava os andares superiores e levava o pedestre para dentro das lojas.
  • A escada rolante Central–Mid-Levels, de 1993, tem mais de 800 metros e vence 135 metros de desnível.
  • A maior escada rolante do mundo hoje fica em Chongqing, na China continental.
  • Boa parte desse chão suspenso é privada, o que redefine a fronteira entre público e privado.

Fontes

Wikipédia — Central–Mid-Levels escalator and walkway system: inauguração em 1993, mais de 800 m, 135 m de desnível e posição atrás da escada de Chongqing

Wikipédia — Hong Kong: 7,5 milhões de habitantes em 1.114 km², quarta região mais densa do mundo

Wikipédia — Hongkong Land e Prince's Building: maior proprietária de Central e edifícios ligados por passarelas

Metalocus e BBC — livro Cities Without Ground, de Adam Frampton, Jonathan D. Solomon e Clara Wong, e a origem do sistema nos anos 1960

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