Durante a semana de leilões de Monterey, na Califórnia, a RM Sotheby's levou a martelo o chassi 0 da Ferrari Luce — o primeiro exemplar do primeiro carro 100% elétrico da história da Ferrari. O lance final foi de US$ 40 milhões, revertidos para caridade. O número é interessante por si só, mas fica muito mais interessante quando você o coloca ao lado de uma pergunta que ninguém no mercado brasileiro costuma fazer: se o mundo já paga essa quantia por um carro elétrico, e se quem domina a tecnologia elétrica hoje é a China, por que nenhum carro chinês vale nem perto disso? A resposta não tem nada a ver com engenharia — e tem tudo a ver com tempo.

Os números

  • US$ 40 milhões — Lance final pelo chassi 0 da Ferrari Luce, em leilão beneficente da RM Sotheby's
  • US$ 640 mil — Preço de fábrica da Luce: 550 mil euros antes de impostos
  • US$ 1,1 milhão — O que a casa de leilão estimava para o chassi 0 — o lance passou de 30 vezes isso
  • 496 km/h — Velocidade registrada pelo Yangwang U9, super-esportivo da marca de luxo da BYD
  • €135 milhões — Recorde mundial de leilão: um Mercedes-Benz 300 SLR de 1955, vendido em 2022
  • zero — Carros chineses na lista mundial dos automóveis já leiloados por mais de US$ 4 milhões

O que foi vendido em Monterey

O que foi vendido em Monterey
Crédito: Wikimedia Commons

A Ferrari Luce é o primeiro carro totalmente elétrico produzido pela Ferrari em 86 anos de história. O exemplar leiloado não era um carro comum de linha: era o chassi 0, a primeira unidade produzida, preparada pelo programa Tailor Made da marca e oferecida em leilão beneficente durante a Monterey Car Week. De fábrica, a Luce parte de 550 mil euros antes de impostos, algo perto de US$ 640 mil. A própria casa de leilão trabalhava com uma estimativa acima de US$ 1,1 milhão para essa unidade especial. O martelo caiu em US$ 40 milhões — mais de trinta vezes a expectativa.

A ironia do carro sem barulho

A ironia do carro sem barulho
Crédito: Wikimedia Commons

Vale registrar o detalhe que passa despercebido na manchete: a Ferrari construiu quase nove décadas de mito em cima do som do motor V12. O ronco é parte do produto, tanto quanto o desenho e a cor. E o carro que levantou esse valor não faz barulho nenhum. Isso diz algo importante sobre o mercado de colecionadores: ele já aceitou o elétrico. O que ele ainda não aceitou é qualquer marca elétrica.

A China não perde por engenharia

A China não perde por engenharia
Crédito: Wikimedia Commons

A explicação preguiçosa seria dizer que o carro chinês não vale porque é inferior. Os números não sustentam isso. O Yangwang U9, super-esportivo da marca de luxo da BYD, tem versão que registrou 496 km/h — acima de qualquer Ferrari de rua já produzida. A indústria chinesa domina bateria, motor elétrico, eletrônica embarcada e software, e exporta carro elétrico para o mundo inteiro. Em capacidade de fabricação, a disputa acabou faz tempo.

E também não perde por falta de tradição

E também não perde por falta de tradição
Crédito: Wikimedia Commons

Outra explicação comum é que faltaria à China uma tradição de luxo automotivo. Também não fecha. A Hongqi foi criada em 1958 e é a marca de luxo do Estado chinês, o carro oficial dos desfiles em Pequim — são quase 70 anos de história ininterrupta. Ainda assim, na lista mundial dos automóveis já leiloados por mais de US$ 4 milhões, dominada por Ferrari, Mercedes-Benz, Bugatti, Alfa Romeo e Porsche, não aparece um único carro chinês.

O que forma o preço de leilão é nostalgia

O que forma o preço de leilão é nostalgia
Crédito: Wikimedia Commons

Os fatores que empurram um carro para a casa dos milhões são conhecidos: baixa produção e raridade, desejo, design marcante para a própria época, condição e documentação, histórico esportivo — e nostalgia, o chamado efeito geracional. Colecionadores no auge da capacidade financeira compram os carros com os quais se identificam, normalmente os que sonharam na juventude. É por isso que carro velho fica caro: não é o metal que valoriza, é a lembrança.

A conta que falta é a do tempo

A conta que falta é a do tempo
Crédito: Boss Hunting

A Ferrari nasceu em 1939. O carro mais caro já leiloado no mundo é um Mercedes-Benz 300 SLR de 1955, vendido por 135 milhões de euros em 2022. Esses mitos levaram de sessenta a oitenta anos para amadurecer no imaginário. A indústria de luxo elétrica chinesa tem menos de cinco. A resposta honesta para a pergunta do título, hoje, é não. Mas o relógio joga a favor deles: quem tem vinte anos agora e cresce vendo supercarro elétrico chinês vai ter, lá na frente, dinheiro para comprar o carro da própria juventude. Valor de colecionador não se fabrica — se espera.

Resumo em pontos

  • O chassi 0 da Ferrari Luce, primeiro elétrico da marca, foi leiloado por US$ 40 milhões em Monterey.
  • De fábrica, a Luce custa 550 mil euros; a casa de leilão estimava pouco mais de US$ 1,1 milhão para essa unidade.
  • O mercado de colecionadores já aceita carro elétrico — o que ele não aceita ainda é marca sem história.
  • A China não perde por engenharia: o Yangwang U9, da BYD, registrou 496 km/h.
  • Nem por tradição: a Hongqi existe desde 1958 e é a marca de luxo do Estado chinês.
  • Nenhum carro chinês aparece na lista mundial dos leiloados acima de US$ 4 milhões.
  • Preço de leilão se forma com raridade, desejo, design e nostalgia — e nostalgia só se acumula com o tempo.

Fontes

RM Sotheby's — leilão beneficente do chassi 0 da Ferrari Luce, Monterey Car Week 2026

Carscoops — preço de fábrica da Ferrari Luce (550 mil euros) e estimativa da casa de leilão

Boss Hunting e duPont Registry — cobertura do resultado do leilão

Wikipedia — List of most expensive cars sold at auction (recorde do Mercedes-Benz 300 SLR de 1955 e fatores que formam o preço)

Quer ir além? Veja o dossiê completo deste tema em destinochina.com/china/ferrari-luce-40-milhoes-carro-chines e conheça a consultoria da Destino China para importar com segurança.