Todo início de mês a Secex solta os números da balança comercial — e os de junho, divulgados nesta semana, merecem parada: o Brasil registrou a maior corrente de comércio mensal da sua história, com a China puxando quase tudo. Este dossiê organiza os números oficiais, explica os 4 motores do salto (petróleo, soja, carne e minério) e mostra por que 2026 caminha para um novo recorde na relação Brasil-China.

Os números

  • US$ 12,3 bi — as exportações do Brasil para a China só em junho (+24,4%); no semestre, US$ 58,3 bi (+21,9% em valor, +9,7% em volume) — dados oficiais Secex/MDIC
  • US$ 62,8 bi — a corrente de comércio do Brasil em junho — o MAIOR valor mensal já registrado na história do comércio exterior brasileiro; superávit de US$ 9,8 bi no mês (+66,6%)
  • 31,6% — de tudo que o Brasil exportou no semestre foi para a China — quase 1 de cada 3 dólares; o superávit bilateral (US$ 19,8 bi) equivale a quase metade do superávit total do país
  • 2 de 3 — barris de petróleo exportados pelo Brasil em março foram para a China (67%) — em junho, as vendas de petróleo saltaram +78,9% no embalo pós-Ormuz
  • 85 vs 12 — milhões de toneladas: a soja que a China comprou do Brasil vs dos EUA em 2025 — com projeção de até 110 milhões de toneladas em 2026 (ANEC)
  • 7x — o ritmo de crescimento das exportações pra China (+24,4%) vs pros EUA (+3,7%) em junho; a corrente com a China já é mais que o dobro da americana e aponta pra US$ 190-195 bi em 2026

Os números oficiais: um junho pra história

Os números oficiais: um junho pra história
Crédito: Economic News Brasil

Os dados da Secex/MDIC divulgados em 3 de julho confirmam a aceleração: exportações à China de US$ 12,291 bilhões em junho (+24,4% sobre 2025) e US$ 58,322 bilhões no primeiro semestre (+21,9%). As importações da China somaram US$ 38,5 bi no semestre, deixando superávit bilateral de US$ 19,8 bilhões. No agregado, junho foi histórico: exportações totais de US$ 36,3 bi (+24,9%), superávit de US$ 9,8 bi (terceiro melhor junho da série) e corrente de comércio de US$ 62,8 bilhões — o maior valor mensal já registrado na história do comércio exterior brasileiro. Detalhe da coletiva: o diretor da Secex destacou a menor demanda argentina por produtos brasileiros — a China compensou de sobra.

Motor 1 — Petróleo: o legado de Ormuz

Motor 1 — Petróleo: o legado de Ormuz
Crédito: InfoMoney

As exportações de petróleo saltaram 78,9% em junho, consolidando o movimento que a crise do Estreito de Ormuz iniciou: com o Golfo sob risco, a China migrou compras para o pré-sal brasileiro, de rota atlântica segura. No primeiro trimestre, a China ficou com 57% de todo o cru exportado pelo Brasil — com pico de 67% em março (1,6 milhão de barris/dia, volume recorde): dois de cada três barris embarcados pelo país tiveram o mesmo destino. Foram US$ 7,2 bilhões só no trimestre (+94%).

Motor 2 — Soja: a China trocou os EUA pelo Brasil

Motor 2 — Soja: a China trocou os EUA pelo Brasil
Crédito: InfoMoney

A soja cresceu 17,3% em junho, mas o número esconde a mudança estrutural: com a tarifa chinesa sobre a soja americana (que chegou a 34% e segue em 13%, contra 3% da sul-americana), a China praticamente substituiu o fornecedor — comprou cerca de 85 milhões de toneladas do Brasil contra ~12 milhões dos EUA em 2025, e a ANEC projeta 108-110 milhões de toneladas em 2026. Cada rodada da guerra comercial entre Washington e Pequim abre mercado para o agro brasileiro.

Motores 3 e 4 — Carne (a corrida contra a cota) e minério

Motores 3 e 4 — Carne (a corrida contra a cota) e minério
Crédito: Movimento Econômico

A carne bovina saltou 39,2% e a de aves 62,4% em junho — em boa parte, a corrida dos frigoríficos para embarcar antes de a cota chinesa esgotar (como mostramos no dossiê da cota: 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12%; acima disso, 67%). Em maio, a China importou US$ 1,04 bilhão em carne brasileira num único mês (+80%). O minério de ferro cresceu 20%, com a China levando 67% de tudo que o Brasil exporta do produto. Somados, os quatro motores — petróleo, soja, carne e minério — apontam para o mesmo porto.

O contraste com os EUA e a projeção de novo recorde

O contraste com os EUA e a projeção de novo recorde
Crédito: InfoMoney

Enquanto a China acelerava 24,4%, as exportações aos EUA cresceram 3,7% em junho — um ritmo sete vezes menor. O comércio com a China (US$ 171 bilhões em 2025) já é mais que o dobro do americano, e a distância aumenta: a corrente bilateral do 1º semestre (US$ 96,9 bi) anualizada aponta para US$ 190-195 bilhões em 2026 — novo recorde histórico, com um segundo semestre que tradicionalmente é ainda mais forte em petróleo e minério. O MDIC já revisou a projeção de superávit total do Brasil de US$ 72 bi para US$ 90 bilhões, com exportações totais estimadas em US$ 394 bi. Para quem vive de comércio exterior, a mensagem dos dados é uma só: o centro de gravidade do comércio brasileiro fica cada vez mais a leste.

Resumo em pontos

  • Secex/MDIC (03/07): exportações à China de US$ 12,3 bi em junho (+24,4%) e US$ 58,3 bi no 1S26 (+21,9%); superávit bilateral de US$ 19,8 bi — quase metade do superávit total do Brasil (US$ 42,4 bi) (CNN Brasil, Agência Brasil).
  • Junho histórico: corrente de comércio de US$ 62,8 bi, a maior de um único mês na história do comércio exterior brasileiro; superávit de US$ 9,8 bi (+66,6%) (Agência Brasil).
  • Os 4 motores: petróleo +78,9% (China com 57-67% do cru brasileiro pós-Ormuz), soja +17,3% (85 mi t vs 12 mi dos EUA; projeção 108-110 mi t), carne bovina +39,2% e aves +62,4% (corrida da cota), minério +20% (China leva 67%) (Secex, InfoMoney, CNN, Folha Vitória).
  • Contraste: EUA +3,7% em junho — ritmo 7x menor; comércio com a China já é mais que o dobro do americano (Jornal de Brasília/Estadão, Poder360/CEBC).
  • Projeção: corrente Brasil-China rumo a US$ 190-195 bi em 2026 (recorde; 2025: US$ 171 bi); MDIC elevou projeção de superávit total para US$ 90 bi (Agência Brasil, cálculo sobre dados Secex).

Fontes

CNN Brasil (03/07/2026): dados Secex de exportações/importações Brasil-China de junho e do semestre e declaração do diretor Herlon Brandão. Agência Brasil: balança de junho (US$ 36,3 bi exportados, superávit US$ 9,8 bi, corrente recorde de US$ 62,8 bi) e revisão do MDIC (superávit projetado de US$ 90 bi). InfoMoney: petróleo — China com 57% do cru brasileiro no 1T26, pico de 67% em março, US$ 7,2 bi (+94%). CNN Brasil e Gazeta do Povo: a troca da soja americana pela brasileira (tarifas de 13% vs 3%; 85 mi t vs 12 mi t; ANEC 108-110 mi t). Folha Vitória e Agência Brasil: cota chinesa da carne (1,106 mi t; 70% consumida em 4 meses; US$ 1,04 bi importados em maio). CNN Brasil: minério de ferro (China com 67%; US$ 19,5 bi em 2025). Jornal de Brasília/Estadão: exportações aos EUA +3,7% em junho. Poder360/CEBC: recorde de US$ 171 bi na corrente Brasil-China em 2025.

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