A China comprou o caminho da soja brasileira

Circulou nas redes um vídeo afirmando que a China comprou o coração do Porto de Santos. A alegação é forte o bastante para merecer checagem — e o resultado é que a tese central está correta, os números reais são maiores do que os citados no vídeo, e há um erro relevante de identificação de empresa. Este texto separa o que é fato do que foi dito errado, e explica por que a estratégia chinesa no agro brasileiro não é sobre o preço da soja: é sobre o caminho da soja até o cliente final.
Os números
- 2022 — Ano em que a COFCO arrematou o terminal STS11 em leilão público de arrendamento no Porto de Santos
- R$ 1,7 bilhão — Investimento na primeira fase do STS11, inaugurada em março de 2025
- 14,5 milhões t — Capacidade anual projetada do terminal — o maior de granéis da COFCO fora da China
- R$ 2 bilhões — Investimento anunciado em abril de 2026 para dobrar o esmagamento de soja em Rondonópolis (MT)
- R$ 1,2 bilhão — Aporte da COFCO em transporte ferroviário no Brasil
- 23 e 979 — Locomotivas e vagões trazidos da China para escoar 4 milhões de toneladas por ano
O que é verdade: o leilão do STS11

A COFCO, estatal chinesa voltada à segurança alimentar, arrematou em 2022 o terminal STS11, no Porto de Santos. É importante registrar como isso aconteceu: não foi uma compra discreta de ativo privado, foi leilão público de arrendamento conduzido pelo poder concedente brasileiro, com edital e concorrência. A primeira fase do terminal foi inaugurada em março de 2025.
O número que o vídeo errou para menos

O vídeo fala em um projeto de meio bilhão de reais. Só a primeira fase do STS11 saiu por R$ 1,7 bilhão. Quando estiver concluído, o terminal será o maior de granéis da COFCO fora da China, com capacidade projetada de 14,5 milhões de toneladas por ano. Ou seja: a crítica do vídeo é conservadora demais diante do tamanho real do investimento.
O porto é só uma ponta da cadeia

A estratégia não para no cais. Em abril de 2026, a COFCO anunciou R$ 2 bilhões para dobrar a capacidade de esmagamento de soja da fábrica de Rondonópolis, no Mato Grosso, o que deve transformá-la no maior complexo de soja do Brasil. Entre a lavoura e o porto entra ainda a ferrovia: a empresa aportou R$ 1,2 bilhão em transporte ferroviário e trouxe da China 23 locomotivas e 979 vagões para escoar cerca de 4 milhões de toneladas por ano. Campo, processamento, trilho e terminal — a cadeia inteira sob o mesmo controle.
O erro do vídeo: COFCO não é COSCO

O vídeo afirma que a COFCO financiou uma rota pelo Peru até a Ásia. Isso não procede. O megaporto de Chancay, inaugurado em novembro de 2024 no litoral peruano, é um projeto da COSCO, a estatal chinesa de navegação — outra empresa, de outro setor. As duas são estatais chinesas e os nomes se parecem, mas confundir uma com a outra muda completamente quem está fazendo o quê no tabuleiro.
E a rota peruana tem um porém para o Brasil

Chancay realmente encurta a travessia marítima até a Ásia e recebe navios de grande calado, mais profundos do que Santos comporta. O problema, para a carga brasileira, não é o porto peruano: é chegar até ele. A mercadoria precisaria atravessar os Andes por estrada e ainda passar pelo desembaraço aduaneiro peruano, o que pode consumir dias. Para boa parte do Brasil, a conta ainda não fecha.
A lição que vale para qualquer negócio

O ponto que interessa a quem compra e vende não é geopolítico, é comercial. Durante décadas, a China comprou soja brasileira pagando margem a intermediários que controlavam a logística. Em vez de brigar por centavos no preço da saca, comprou o caminho: originação no campo, processamento próprio, ferrovia e terminal portuário. Quem controla a logística senta na mesa de negociação com mais poder — e não adianta ter o melhor produto se o caminho até o cliente pertence a outro.
Resumo em pontos
- A COFCO arrematou o terminal STS11 no Porto de Santos em leilão público de arrendamento, em 2022.
- Só a primeira fase, inaugurada em março de 2025, custou R$ 1,7 bilhão — bem mais do que o vídeo afirma.
- A capacidade projetada é de 14,5 milhões de toneladas por ano, o maior terminal de granéis da COFCO fora da China.
- Em abril de 2026 a empresa anunciou R$ 2 bilhões para dobrar o esmagamento de soja em Rondonópolis (MT).
- A COFCO também aportou R$ 1,2 bilhão em ferrovia e trouxe 23 locomotivas e 979 vagões da China.
- O porto de Chancay, no Peru, é da COSCO, estatal chinesa de navegação — não da COFCO.
- Para a carga brasileira, o gargalo de Chancay não é o porto: é atravessar os Andes até ele.
Fontes
G1, Canal Rural e Migalhas — leilão do terminal STS11 no Porto de Santos, março de 2022
Revista O Empreiteiro e Canal Rural — inauguração da primeira fase do STS-11 com R$ 1,7 bilhão, março de 2025
A Tribuna — capacidade de 14,5 milhões de toneladas por ano do terminal
Globo Rural, CNN Brasil e Prefeitura de Rondonópolis — R$ 2 bilhões na ampliação da fábrica em Mato Grosso, abril de 2026
Globo Rural — R$ 1,2 bilhão da COFCO em transporte ferroviário; recebimento de 23 locomotivas e 979 vagões
BBC Brasil e NeoFeed — porto de Chancay, controlado pela COSCO, e os limites logísticos da rota para o Brasil
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