Tem um jeito simples de enxergar a diferença entre a riqueza antiga e a riqueza nova: olhar o que cada uma faz com uma garrafa de vinho caro. Quando o rico chinês ficou rico de verdade, ele não comprou só carro e relógio. Ele comprou Bordeaux, em caixas, para guardar como reserva de valor e exibir como status. O vinho francês virou ativo financeiro, e Hong Kong virou o maior hub de leilões de vinho do mundo depois de zerar o imposto em 2008. São fatos públicos, com números e fontes, e o desfecho ensina algo sobre dinheiro. Vale olhar com calma.

Os números

  • 2008 — ano em que Hong Kong zerou o imposto sobre vinho (era 80%, cortado pela metade em 2007)
  • 40% — alta do índice Liv-ex 100, das melhores garrafas do mundo, só em 2010
  • US$232 mil — preço de cada uma das três garrafas de Lafite 1869, recorde mundial em leilão (Sotheby's HK, 2010)
  • ~50% — queda de um case de Lafite 1982 entre 2010 e 2012, quando a bolha estourou

Por que o bilionário chinês guarda vinho, e não só ouro

Por que o bilionário chinês guarda vinho, e não só ouro
Crédito: Acervo

Quando a nova fortuna chinesa apareceu, parte dela foi parar em adega. O rico recém-chegado comprou Bordeaux em caixas para guardar como reserva de valor. A lógica é que o vinho certo faz duas coisas ao mesmo tempo: sobe de preço com o tempo, como um ativo, e comunica status na mesa de qualquer jantar de negócios. É troféu e cofre na mesma garrafa, algo que ouro e dinheiro parado não conseguem entregar juntos.

O Lafite virou rei: a febre do primeiro growth

O Lafite virou rei: a febre do primeiro growth
Crédito: Acervo

Um nome dominou o desejo chinês: o Château Lafite Rothschild, um dos cinco primeiros growths de Bordeaux, o topo da hierarquia. O Lafite virou o presente que se dava para fechar negócio ou agradar quem decide, e ganhou fama de presente quase oficial nesse mundo. O índice Liv-ex 100, que acompanha as cem melhores garrafas do mundo, subiu 40% só em 2010. Os primeiros growths da safra 2010 saíram a cerca de 736 euros a garrafa, contra cerca de 141 euros em 2000.

O caractere 8 que fez o preço saltar de um dia pro outro

O caractere 8 que fez o preço saltar de um dia pro outro
Crédito: Acervo

Para sentir o tamanho da loucura, basta um episódio. A Lafite anunciou que a safra 2008 viria com o caractere chinês do número 8 gravado na garrafa. Na China, o 8 é símbolo de sorte e prosperidade, porque a palavra para oito lembra a palavra para riqueza. Só o anúncio fez o preço do Lafite 2008 saltar cerca de 20% da noite para o dia. Não era o vinho que tinha mudado, era o significado.

Hong Kong zera o imposto e vira a capital mundial do leilão

Hong Kong zera o imposto e vira a capital mundial do leilão
Crédito: Acervo

Havia um motor por trás de tudo: Hong Kong. Em 2007 a cidade cortou pela metade o imposto de 80% sobre vinho, e em 2008 zerou de vez. Com imposto zero, o dinheiro do vinho do mundo correu para lá. O efeito foi imediato: Hong Kong ultrapassou Londres e Nova York e virou o maior mercado de leilão de vinho fino do planeta já em 2010. As vendas em leilão mais que dobraram, de US$27 milhões em 2008 para US$64 milhões em 2009.

O leilão que virou bolsa de valores

O leilão que virou bolsa de valores
Crédito: Acervo

Em outubro de 2010, a Sotheby's de Hong Kong vendeu 2.000 garrafas direto da adega da própria Lafite. O vintage 2008, estimado em cerca de US$666, foi a cerca de US$2.860 a garrafa. E três garrafas do lendário Lafite 1869 bateram recorde mundial: cerca de US$232 mil cada. Pouca gente ali pretendia abrir aquelas garrafas. O vinho tinha virado ativo, como ação ou imóvel: comprava-se para estocar e revender mais caro. O leilão funcionava como uma bolsa líquida.

Os dois lados: a riqueza que exibe e a riqueza que bebe

Os dois lados: a riqueza que exibe e a riqueza que bebe
Crédito: Acervo

Para ser honesto, vale ver os dois lados. A riqueza nova usa o vinho para exibir e para estocar, troféu e cofre ao mesmo tempo. A riqueza antiga, a europeia de berço, faz o contrário: abre a garrafa e bebe, sem alarde, porque o vinho ali é prazer, não placar. E o mercado provou a diferença. A partir de meados de 2011 a bolha estourou. Um case de Lafite 1982 que valia mais de US$62 mil em 2010 foi a leilão por menos de US$39 mil em 2012, queda de quase 50%. A campanha anticorrupção na China cortou os presentes caros e esfriou a demanda. Quem comprou pelo status, e não pelo vinho, foi quem mais perdeu.

Resumo em pontos

  • Os ricos novos da China passaram a colecionar Bordeaux, principalmente o Château Lafite Rothschild (primeiro growth), como reserva de valor e símbolo de status (Wine Cellar Insider, Time).
  • Hong Kong cortou pela metade o imposto de 80% sobre vinho em 2007 e zerou de vez em 2008 (SCMP, PRNewswire, Grape Wall of China).
  • Com imposto zero, Hong Kong ultrapassou Londres e Nova York e virou o maior mercado de leilão de vinho fino do mundo já em 2010; as vendas em leilão saltaram de US$27 milhões (2008) para US$64 milhões (2009) (SCMP, JeannieChoLee).
  • O índice Liv-ex 100 subiu 40% em 2010; os primeiros growths de 2010 saíram a ~736 euros/garrafa, contra ~141 euros em 2000; o Lafite 2008 subiu ~20% só ao anunciar o caractere 8 gravado (Decanter, The Drinks Business).
  • Na Sotheby's HK de outubro de 2010, três garrafas de Lafite 1869 bateram recorde mundial a ~US$232 mil cada; depois a bolha estourou, e um case de Lafite 1982 caiu quase 50% entre 2010 e 2012 (Jancis Robinson, Jing Daily, The Local).

Fontes

SCMP, PRNewswire e Grape Wall of China (Hong Kong cortou o imposto de 80% pela metade em 2007 e zerou em 2008; tornou-se hub de leilão de vinho); SCMP e JeannieChoLee (Hong Kong virou o maior mercado de leilão de vinho fino do mundo em 2010; vendas em leilão de US$27 mi em 2008 para US$64 mi em 2009); Wine Cellar Insider e Time (febre do Lafite na China, Lafite como status e presente, bolha de Bordeaux); Decanter (Liv-ex 100 +40% em 2010; primeiros growths 2010 a ~736 euros vs ~141 euros em 2000; bolha de Bordeaux de 20 anos); Decanter e The Drinks Business (Lafite 2008 com caractere 8 subiu ~20% da noite pro dia); Jancis Robinson, Jing Daily e Arts & Collections (Sotheby's HK out/2010 vendeu 2.000 garrafas da adega da Lafite; Lafite 1869 a ~US$232.692 por garrafa, recorde mundial); The Local e Decanter (estouro da bolha a partir de 2011; Lafite 1982 caiu quase 50% entre 2010 e 2012; campanha anticorrupção esfriou a demanda).

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