Quando se fala em vinho fino, todo mundo pensa na França. E faz sentido: por volta de 2013 a China virou o maior importador de vinho de Bordeaux do mundo, e em 2014 ultrapassou França e Itália como o maior consumidor de vinho tinto do planeta. Mas o motor dessa corrida não foi só o paladar. Foi status, poder e a cultura de presentear vinho caro nas relações de negócio, o famoso guanxi. A febre do Château Lafite virou símbolo dos novos ricos, com garrafas vendidas por fortunas e uma onda gigante de falsificação. Hoje a bolha esfriou e a própria China virou produtora de vinho premiado. São fatos públicos, com números e fontes. Vale olhar com calma.

Os números

  • +30% — fatia da China nas exportações de Bordeaux por volta de 2015, vinda de menos de 1%
  • 2014 — ano em que a China virou o maior consumidor de vinho tinto do mundo
  • US$ 232 mil — pagos por um comprador chinês por cada garrafa de um Lafite 1869 (leilão Sotheby's, Hong Kong)
  • 85 medalhas — conquistadas pela região de Ningxia no Decanter World Wine Awards 2024, com 5 ouros

A China virou o maior comprador de Bordeaux do mundo

A China virou o maior comprador de Bordeaux do mundo
Crédito: Acervo

Por volta de 2013, a China ultrapassou a Alemanha e se tornou o maior importador de vinho de Bordeaux do mundo, em volume e em valor, segundo a associação do setor (CIVB). Em poucos anos, a fatia da China nas exportações de Bordeaux saltou de menos de 1% para mais de 30%. E não parou aí: em 2014 a China ultrapassou França e Itália e virou o maior consumidor de vinho tinto do planeta. Cerca de 80% do vinho consumido na China é tinto, quase sempre vermelho, cor associada à sorte e à prosperidade.

O guanxi: vinho como linguagem de negócio

O guanxi: vinho como linguagem de negócio
Crédito: Acervo

Para entender o porquê, é preciso entender o guanxi, as relações pessoais que sustentam todo negócio na China. Negócio sério se faz na base da confiança, do banquete e do presente certo. E um vinho francês caro virou o presente perfeito: na cultura chinesa, presentear é uma forma de comunicação materializada. A garrafa fala por quem a dá. Dar um vinho raro é dizer eu te respeito, eu te valorizo e eu posso pagar por isso. É menos sobre o sabor e mais sobre a face, o status diante dos outros.

A febre do Lafite: o símbolo dos novos ricos

A febre do Lafite: o símbolo dos novos ricos
Crédito: Acervo

A partir de 2008, um nome virou obsessão entre os ricos chineses: o Château Lafite Rothschild. Ele deixou de ser apenas um grande vinho e virou O símbolo de status, o troféu que anunciava que você havia chegado lá. Num leilão da Sotheby's em Hong Kong, um comprador chinês pagou cerca de 232 mil dólares por cada uma de três garrafas de um Lafite de 1869. Não era preço de vinho, era preço de troféu. A demanda foi tão grande que estima-se que entre 50% e 70% do vinho vendido como Lafite na China seja falso.

Status, poder e a face

Status, poder e a face
Crédito: Acervo

O vinho francês na China sempre foi uma mistura de duas coisas. Tem o gosto verdadeiro de uma classe rica que aprendeu a apreciar vinho. Mas tem, e por muito tempo predominou, o uso do vinho como símbolo de riqueza e poder. Vinho de luxo era usado como ferramenta de prestígio, para manter e melhorar a face, a reputação social. Por isso o preço importava tanto: quanto mais caro o vinho dado de presente, mais alto o recado de respeito e de poder. O paladar quase virou detalhe diante do nome no rótulo.

A China que deixou de só comprar e passou a produzir

Tem um lado dessa história que quase ninguém conta no Brasil: a China não está mais só comprando vinho, ela está fazendo. A região de Ningxia, no norte do país, virou um polo de vinhos finos e liderou a China com 85 medalhas no Decanter World Wine Awards de 2024, incluindo cinco de ouro. São vinhos chineses ganhando prêmios internacionais de peso, em uma das competições mais respeitadas do mundo. O país que virou o maior comprador de Bordeaux começou a virar também concorrente.

Os dois lados: paixão real e bolha que estourou

Os dois lados: paixão real e bolha que estourou
Crédito: Acervo

Para ser honesto, é preciso olhar os dois lados. De um lado, a paixão pelo vinho é real e cresceu junto com uma classe rica de verdade. Do outro, muita coisa sempre foi status e ostentação. Tanto que a bolha estourou: depois de 2011, vários safras do Lafite chegaram a perder perto de metade do valor, e a campanha anticorrupção do governo, a partir de 2013, cortou banquetes e presentes caros. Em 2024 os Estados Unidos já tinham ultrapassado a China como maior mercado de exportação do Bordeaux. A verdade está no meio: nem só esnobismo, nem só amor por vinho. Status, relações e poder, com o gosto vindo junto.

Resumo em pontos

  • Por volta de 2013 a China se tornou o maior importador de vinho de Bordeaux do mundo, em volume e valor; por volta de 2015 sua fatia nas exportações de Bordeaux saltou de menos de 1% para mais de 30% (CIVB / Jing Daily / Decanter).
  • Em 2014 a China ultrapassou França e Itália e virou o maior consumidor de vinho tinto do mundo; cerca de 80% do vinho consumido no país é tinto (Statista / Journal of Wine Economics).
  • Vinho caro virou presente central nas relações de negócio (guanxi), como símbolo de riqueza, poder e face (SCMP / ScienceDirect).
  • Na febre do Lafite, a partir de 2008, um comprador chinês pagou cerca de US$ 232 mil por cada uma de três garrafas de um Lafite 1869 na Sotheby's de Hong Kong; estima-se que 50% a 70% do vinho vendido como Lafite na China seja falso (The Wine Cellar Insider / TIME / Wikipedia).
  • A bolha esfriou após 2011 e a campanha anticorrupção (a partir de 2013) cortou presentes caros; em 2024 os EUA já tinham passado a China como maior mercado de exportação do Bordeaux. Ao mesmo tempo, a região de Ningxia liderou a China com 85 medalhas, sendo 5 ouros, no Decanter World Wine Awards 2024 (Vino Joy News / Decanter China).

Fontes

CIVB, Jing Daily e Decanter (China maior importador de Bordeaux por volta de 2013, fatia de menos de 1% para mais de 30% das exportações de Bordeaux); Statista e Journal of Wine Economics (China maior consumidora de vinho tinto do mundo em 2014, cerca de 80% do consumo é tinto); SCMP e ScienceDirect (cultura do presente, guanxi e vinho de luxo como símbolo de riqueza, poder e face); The Wine Cellar Insider, TIME e Wikipedia (febre do Lafite a partir de 2008, US$ 232 mil por garrafa de Lafite 1869 na Sotheby's Hong Kong, 50% a 70% de vinho falso); Vino Joy News (EUA ultrapassaram a China como maior mercado de exportação do Bordeaux em 2024/2025, Grand Cru para a Grande China em mínima recorde, Hong Kong 4o maior mercado em 2024 com cerca de 157 milhões de euros); Decanter China (Ningxia liderou a China com 85 medalhas e 5 ouros no Decanter World Wine Awards 2024).

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