A China virou um mercado bilionário de luxo de segunda mão

A China é o maior mercado de luxo novo do mundo por receita. E quando um país compra bolsa e relógio de grife nessa escala, sobra muita peça de marca no armário. Foi assim que nasceu um mercado bilionário de luxo de segunda mão, digital, autenticado e dominado pela juventude. Plataformas como a ZZER (只二) transformaram a revenda de tabu em tendência. Vale olhar os números, e os dois lados da história, com calma.
Os números
- US$ 102 bi — em produtos de luxo vendidos na China em 2024, o maior mercado do mundo (Statista)
- US$ 30 bi — projeção da revenda de luxo na China em 2025, contra US$ 8 bi em 2020
- menos de 5% — do mercado de luxo da China é usado, contra ~31% nos EUA e ~28% no Japão
- ~65% — das compras de luxo de segunda mão na China são de mulheres da Geração Z
A China é o maior mercado de luxo novo do mundo

Antes de falar de revenda, é preciso entender o apetite. A China é o maior mercado de luxo novo do planeta por receita: foram cerca de US$ 102 bilhões em produtos de luxo em 2024 (Statista), perto de um quarto de tudo que se vende no mundo, e o país representou cerca de 25% do mercado global de luxo pessoal em 2023. Quando muita gente compra bolsa cara, muita bolsa cara acaba sobrando no armário. É desse excedente que nasce o mercado de segunda mão.
A revenda de luxo quase quadruplicou em cinco anos

Em 2020, o mercado de luxo de segunda mão na China movimentava cerca de US$ 8 bilhões (RMB 57 bilhões). Para 2025, a projeção é de cerca de US$ 30 bilhões (RMB 215 bilhões), segundo estimativas citadas por SCMP e Daxue Consulting. Isso é o mercado quase quadruplicando em cinco anos, crescendo entre 15% e 20% ao ano. E não é brechó de esquina: é consignação digital, com aplicativo, vitrine e estoque gigante.
ZZER: a plataforma que autentica cada bolsa

O nome que resume esse boom é a ZZER, o 只二, plataforma de Shanghai fundada por volta de 2015, cujo lema é secondhand goods, firsthand love. O diferencial não é o preço, é a confiança: toda peça passa por autenticação 100% feita por equipe própria antes de ir à venda, com parceria da CCIC (China Certification & Inspection Group), que emite laudo do item. A ZZER já tem lojas físicas em Shanghai, Shenzhen, Hangzhou, Chengdu e Beijing, e só a unidade de Shanghai recebe cerca de 5.000 anúncios de itens novos por dia.
Quem compra é a Geração Z

O perfil do comprador surpreende. Não é o consumidor rico clássico: é a juventude. Mulheres da Geração Z representam cerca de 65% das compras de luxo de segunda mão na China (Daxue Consulting). Para esse público, comprar uma bolsa de grife autenticada e usada virou uma forma inteligente e sustentável de acessar o desejo, sem pagar o preço cheio da loja. Plataformas como Plum (红布林) e Feiyu disputam o mesmo consumidor.
Por que agora: o luxo novo esfriou

O timing não é coincidência. O mercado de luxo pessoal na China continental caiu entre 17% e 19% em 2024 e recuou mais 3% a 5% em 2025, segundo a Bain & Company, pressionado pela crise imobiliária e por um consumidor mais cauteloso. Com o bolso apertado, comprar usado autenticado virou a forma de manter o estilo de vida de luxo gastando menos. A desaceleração do novo é, em parte, o combustível do usado.
Os dois lados do boom

Vale olhar a história inteira. De um lado, a revenda democratiza o acesso a grifes e é mais sustentável: a mesma bolsa circula por vários donos em vez de virar lixo. De outro, abre porta para falsificação e depende de um mercado de luxo novo que está em queda, o que torna a autenticação o coração do negócio e o calcanhar de Aquiles ao mesmo tempo. E há espaço enorme para crescer: o usado ainda é menos de 5% do mercado de luxo da China, contra cerca de 31% nos EUA e 28% no Japão (Daxue Consulting).
Resumo em pontos
- A China é o maior mercado de luxo novo do mundo por receita: cerca de US$ 102 bilhões em 2024 (Statista) e ~25% do mercado global de luxo pessoal em 2023.
- O mercado de luxo de segunda mão na China saltou de cerca de US$ 8 bilhões (2020) para uma projeção de ~US$ 30 bilhões em 2025, crescendo de 15% a 20% ao ano (SCMP, Daxue, Qianzhan).
- A ZZER (只二), de Shanghai, autentica 100% das peças com equipe própria e parceria da CCIC, tem lojas em 5 cidades e recebe ~5.000 anúncios por dia só em Shanghai.
- Mulheres da Geração Z são cerca de 65% das compras de luxo usado na China; o boom é puxado pela juventude e por plataformas digitais como ZZER, Plum (红布林) e Feiyu.
- Apesar do tamanho, o usado ainda é menos de 5% do mercado de luxo da China (contra ~31% nos EUA e ~28% no Japão), e o luxo novo caiu 17-19% em 2024 e 3-5% em 2025 (Bain).
Fontes
SCMP (boom de US$ 30 bilhões na revenda de luxo na China, dez/2025), Daxue Consulting (penetração China <5% vs EUA ~31% e Japão ~28%; mercado US$ 8 bi em 2020; Gen Z ~65%; ZZER), Bain & Company (queda de 17-19% em 2024 e 3-5% em 2025 no luxo pessoal chinês) e Statista (China ~US$ 102 bi em 2024 e ~25% do mercado global de luxo pessoal em 2023).
Yicai Global / Qianzhan (crescimento de ~15% ao ano da revenda de luxo na China).
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