A China proibiu a própria arquitetura bizarra

Circula pela internet brasileira a foto de um prédio chinês de dez andares construído no formato de três velhos barbados. É real, funciona como hotel e fica a poucos quilômetros de Pequim. A piada é fácil, mas o assunto interessante começa depois dela: quem primeiro classificou esses prédios como feios foram os próprios chineses, e o país acabou criando regras oficiais para impedir que continuassem sendo construídos. Esse arco — do exagero à norma — diz mais sobre o amadurecimento do mercado chinês do que qualquer meme.
Os números
- 35,5 km — Distância entre Yanjiao, onde fica o prédio, e a Praça da Paz Celestial, em Pequim
- 250 mil — População de Yanjiao, na província de Hebei
- 2014 — Ano em que Xi Jinping pediu publicamente o fim da “arquitetura estranha”
- 2016 — Ano em que a orientação contra a arquitetura bizarra virou diretriz oficial
- 500 m — Altura máxima estabelecida em 2020 para novos arranha-céus, junto com a proibição de projetos de cópia
Quem são os três senhores do prédio

As figuras que dão forma ao edifício são Fu, Lu e Shou, conhecidos coletivamente como Sanxing, as “três estrelas” da religião popular chinesa. Fu representa a fortuna, Lu a prosperidade e Shou a longevidade. A representação deles como três anciãos barbados remonta à dinastia Ming, e suas imagens aparecem em templos, casas e lojas por toda a China, especialmente no Ano Novo.
Onde fica

O prédio está em Yanjiao, cidade da província de Hebei que faz fronteira com Pequim, separada da capital pelo rio Chaobai. São 35,5 quilômetros até a Praça da Paz Celestial e cerca de 250 mil habitantes. Um detalhe do projeto costuma chamar atenção: o pêssego que a figura da longevidade segura na mão foi construído para funcionar como suíte. O pêssego da longevidade é símbolo tradicional chinês, presente inclusive em pães de festa de aniversário.
A crítica veio de dentro

Vale registrar que a piada não é importada. Existe na China um concurso anual dedicado a eleger os prédios mais feios do país, organizado por veículos chineses de arquitetura, e o edifício de Yanjiao é presença recorrente nas listas. A autocrítica estética partiu do próprio meio profissional chinês, não de observadores estrangeiros.
Do comentário presidencial à norma

Em 2014, Xi Jinping afirmou publicamente que o país deveria parar de erguer “arquitetura estranha”. Em 2016, a orientação se transformou em diretriz oficial para conter a arquitetura bizarra nas cidades chinesas — ou seja, deixou de ser opinião e virou critério de aprovação de projeto. Quando o chefe de Estado passa a comentar fachada, o assunto saiu do campo do gosto e entrou no do planejamento urbano.
E em 2020 a régua apertou

O passo seguinte foi mais severo. Em 2020, o governo chinês proibiu a arquitetura de cópia — as réplicas de Paris, de vilarejos europeus e de monumentos famosos que se multiplicaram em condomínios pelo país — e limitou a altura de novos arranha-céus a 500 metros, com restrições adicionais anunciadas em 2021. O país que virou meme mundial de imitação legislou contra a imitação.
O que isso diz sobre o mercado

Para quem compra e produz na China, o arco tem leitura prática. A fase de construir qualquer coisa para chamar atenção acabou, e foi substituída por padronização e critério. É o mesmo movimento observado no produto industrial chinês: primeiro a cópia e o excesso, depois a norma e a marca própria. Quem ainda enxerga a China da década passada está avaliando um mercado que já não existe.
Resumo em pontos
- O prédio em formato de três deuses fica em Yanjiao, Hebei, a 35,5 km da Praça da Paz Celestial.
- As figuras são Fu, Lu e Shou, os Sanxing: fortuna, prosperidade e longevidade.
- A representação como três anciãos barbados remonta à dinastia Ming.
- O pêssego segurado pela figura da longevidade foi construído como suíte.
- Existe na China um concurso anual para eleger os prédios mais feios do país.
- Em 2014 Xi Jinping pediu o fim da arquitetura estranha; em 2016 virou diretriz oficial.
- Em 2020 o país proibiu arquitetura de cópia e limitou arranha-céus a 500 metros.
Fontes
Wikipédia — Sanxing (deities): Fu, Lu e Shou e a representação em forma humana desde a dinastia Ming
Wikipédia — Yanjiao: localização em Hebei, distância de 35,5 km da Praça da Paz Celestial e população
Dezeen e ArchDaily — declaração de Xi Jinping em 2014 sobre arquitetura estranha
The New York Times, Forbes e China Daily — diretriz de 2016 contra a arquitetura bizarra
Dezeen, BBC e CNN — proibição da arquitetura de cópia e limite de 500 metros para arranha-céus, 2020 e 2021
CNN — concurso anual chinês para eleger os prédios mais feios do país
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