A China é o país do chá — mas a Luckin acabou de humilhar a Starbucks no café

A China é o país do chá — mas uma marca de café chinesa acabou de humilhar a Starbucks no próprio jogo. A Luckin já é maior que a Starbucks na China em lojas e em faturamento, e fez isso depois de quase morrer num escândalo. Aqui está essa montanha-russa, com números e fontes.
Os números
- 16 copos — o consumo de café por pessoa ao ano na China em 2024 (o dobro de 5 anos antes); o mercado cresce ~21% ao ano
- 2023 — o ano em que a Luckin faturou mais que a Starbucks na China pela primeira vez (RMB 24,9 bi, ~US$ 3,48 bi)
- 24 mil x 7,7 mil — as lojas da Luckin na China contra as da Starbucks China — cerca de 3 para 1
- US$ 300 mi — as vendas que a Luckin FABRICOU no escândalo de fraude de 2020, que a expulsou da Nasdaq (multa de US$ 180 mi)
- 5,42 mi — copos do latte com Moutai vendidos no 1º dia (2023), faturando +RMB 100 milhões — a colab que virou evento nacional
- US$ 0,99 — o cupom de lançamento do café da Luckin ao chegar a Nova York em 2025 (já estava em Singapura desde 2023)
O café explodiu num país de chá — e a Luckin passou a Starbucks

A China é historicamente o país do chá, mas o café virou febre: o consumo passou de 16 copos por pessoa ao ano em 2024 (o dobro de cinco anos antes) e cresce a cerca de 21% ao ano. Nesse mercado novo e gigante, a Luckin Coffee fez o improvável — ultrapassou a Starbucks na própria China. Em 2023, faturou mais que a Starbucks China pela primeira vez (RMB 24,9 bilhões), e a diferença de tamanho é brutal: são cerca de 24 mil lojas da Luckin contra as ~7.700 da Starbucks China, uma proporção de quase 3 para 1.
O segredo: não copiou a Starbucks

A Luckin não tentou ser a Starbucks. Em vez do modelo 'terceiro lugar', de sofás e ambiente para passar a tarde, ela é só app: você pede no celular, retira numa loja minúscula e vai embora, com preço em torno da metade do da rival. É tecnologia (app + dados), preço e velocidade contra experiência e ambiente — e, no mercado chinês, a conveniência ganhou. Foi assim que uma marca local superou uma das maiores multinacionais do mundo no próprio jogo.
A montanha-russa: fraude, queda e ressurreição

A trajetória, porém, quase acabou cedo. Fundada em 2017 e com IPO na Nasdaq em 2019, a Luckin estourou em 2020 num escândalo de fraude contábil: fabricou mais de US$ 300 milhões em vendas. Foi expulsa da bolsa americana e multada em US$ 180 milhões pela SEC — parecia o fim. Mas a empresa se reestruturou, focou no que funcionava e voltou a crescer até se tornar a maior rede de café do país, num dos rebotes empresariais mais impressionantes da década. A arma secreta foram as colabs virais, como o latte com o baijiu Kweichow Moutai, que vendeu 5,42 milhões de copos e faturou mais de RMB 100 milhões só no dia do lançamento.
A concorrência sangrenta e a expansão global

O sucesso atraiu uma guerra. O maior rival, a Cotti Coffee, foi fundado em 2022 pelo próprio cofundador deposto da Luckin, e trava uma guerra de preços (café a RMB 9,9) abrindo lojas quase na porta das da ex-empresa — a poucos metros de distância. Enquanto brigam em casa, a Luckin já atravessa o oceano: abriu em Singapura em 2023 e chegou a Nova York em 2025, com cupom de lançamento de café a US$ 0,99. A marca que venceu a Starbucks na China foi bater na porta dela nos Estados Unidos.
A lição para quem faz negócio

O caso Luckin é um retrato do consumidor chinês e do poder das marcas locais: uma empresa doméstica venceu uma multinacional no próprio jogo, em casa, não copiando o modelo dela, mas apostando em tecnologia, preço e velocidade. Para qualquer marca estrangeira que sonha com o mercado chinês, o recado é claro — subestimar a capacidade das empresas locais de executar mais rápido e mais barato custa caro. E, para o importador brasileiro, é mais uma prova de que a China deixou de ser só 'a fábrica': ela cria, executa e escala marcas de consumo que ditam tendência.
Resumo em pontos
- Luckin ultrapassou a Starbucks na China em lojas (~24 mil x ~7.700) e receita (2023: RMB 24,9 bi) (China Daily, Fortune, Wikipedia).
- Modelo: só app, lojas de retirada, preço ~metade da Starbucks (Fortune, CNN).
- Fundada 2017, IPO 2019, fraude de +US$ 300 mi em 2020 (delistada, multa de US$ 180 mi), recuperou-se e virou a maior do país (SEC, Fortune).
- Colab com Moutai: 5,42 mi de copos e +RMB 100 mi no 1º dia (2023) (Reuters, Luckin).
- Rival Cotti (do cofundador deposto), guerra de preço RMB 9,9; Luckin já em Singapura e NY (US$ 0,99) (Daxue, CNN).
Fontes
China Daily e Fortune: Luckin ultrapassa a Starbucks China em receita (2023) e lojas. Wikipedia (Luckin Coffee): contagem de lojas e histórico. SEC: fraude contábil de +US$ 300 mi, delistagem e multa de US$ 180 mi (2020). Reuters (via Investing.com) e Luckin: colab com Moutai (5,42 mi de copos). Global Coffee Report e Statista: crescimento do mercado de café na China (16 copos per capita, ~21%/ano). CNN e Wikipedia: expansão para Singapura e Nova York. Daxue Consulting e Bamboo Works: rival Cotti Coffee e a guerra de preços.
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