A Europa passou anos discutindo o déficit comercial com a China. Um estudo do Goldman Sachs acaba de mostrar que o problema maior está em outro lugar: os clientes da Europa — Ásia, América Latina, Leste Europeu — agora compram da China. Este dossiê organiza os números dessa virada, do déficit recorde à crise da indústria alemã, e o que ela ensina a quem importa no Brasil.

Os números

  • 54% → 43% — a queda da fatia europeia nas exportações mundiais de bens de capital desde 2005 — enquanto a China saltou de 7% para 24% (Goldman Sachs/Reuters)
  • € 359,8 bi — o déficit comercial recorde da UE com a China em 2025: importações de € 559,4 bi (+6,4%) contra exportações de € 199,6 bi (-6,5%) (Eurostat)
  • +16% — o crescimento das exportações chinesas para a UE nos 5 primeiros meses de 2026; o maquinário chinês vendido na Europa cresceu 50%
  • 15-16% — a fatia das marcas chinesas nos carros elétricos vendidos na Europa — a BYD cresceu 153% na UE mesmo com tarifas de até 45,3%
  • 10 mil — empregos industriais desaparecem POR MÊS na Alemanha; as montadoras alemãs perderam 33% de share dentro da China e o lucro da VW nas JVs caiu 60%
  • 55% — da produção manufatureira europeia está ameaçada pela concorrência chinesa no médio prazo, segundo relatório do planejamento do governo francês (70% na Alemanha)

O diagnóstico do Goldman: o problema são os terceiros mercados

O diagnóstico do Goldman: o problema são os terceiros mercados
Crédito: Reuters via CNN Brasil

O estudo do Goldman Sachs, noticiado pela Reuters e publicado pela CNN Brasil em 02/07/2026, inverte o debate europeu: 'Estimamos que essa concorrência no terceiro mercado, e não o próprio déficit bilateral, seja responsável pela maior parte do impacto negativo' sobre o crescimento da UE. Em outras palavras: a Ásia-Pacífico, a América Latina e o Leste Europeu — que compravam máquinas, equipamentos e carros da Europa — agora compram da China. O banco estima que o surto exportador chinês subtrai 0,2 a 0,3 ponto percentual do crescimento da Alemanha por ano até 2029.

Os números de 20 anos (e o déficit recorde)

Os números de 20 anos (e o déficit recorde)
Crédito: AP via Euronews

Nas exportações mundiais de bens de capital — o coração da indústria de alto valor —, a participação europeia caiu de 54% em 2005 para 43%, enquanto a chinesa saltou de 7% para 24%. Em 2026 o movimento acelerou: exportações da China para a UE cresceram 16% nos cinco primeiros meses, e as vendas de maquinário chinês dentro da Europa subiram 50%. O resultado na balança é histórico: déficit recorde de € 359,8 bilhões da UE com a China em 2025 (Eurostat), com importações crescendo e exportações encolhendo ao mesmo tempo — parte do fluxo desviado pelas tarifas dos EUA foi parar na Europa.

O caso dos carros: tarifas de 45% não seguraram a BYD

O caso dos carros: tarifas de 45% não seguraram a BYD
Crédito: AP via Euronews

O exemplo mais visível da perda de terreno está nas ruas: as marcas chinesas dobraram de participação na UE em um ano (~6% dos emplacamentos; 7,3% somando Reino Unido e EFTA) e já levam 15-16% de todos os elétricos vendidos no continente. A UE reagiu com sobretaxas compensatórias que chegam a 45,3% desde outubro de 2024 — e mesmo assim a BYD cresceu 152,9% na UE, a Chery 267% e a Leapmotor 559%. Bruxelas agora negocia substituir as tarifas por preços mínimos, enquanto BYD, Geely e SAIC contestam as sobretaxas na Justiça europeia.

O epicentro alemão: 10 mil empregos por mês

O epicentro alemão: 10 mil empregos por mês
Crédito: Centre for European Reform

A Alemanha vive o 'China Shock 2.0' na pele: cerca de 10 mil empregos industriais desaparecem por mês, as montadoras demitem no ritmo mais rápido desde 2008 e BASF e Mercedes contratam na China enquanto cortam em casa. A dor vem dos dois lados: dentro da China, as marcas alemãs perderam 33% de participação entre 2022 e 2025 e o lucro da VW nas joint ventures chinesas caiu 60%; a BMW provisionou até € 1 bilhão para reestruturação. Um relatório do planejamento do governo francês estima que até 55% da produção manufatureira europeia está ameaçada no médio prazo — 70% na Alemanha.

O 'ponto de inflexão' — e a lição pro Brasil

O 'ponto de inflexão' — e a lição pro Brasil
Crédito: AP via Euronews

Na cúpula UE-China de julho de 2025, Ursula von der Leyen disse a Xi Jinping que a relação chegou a um 'ponto de inflexão' e exigiu 'reequilíbrio essencial' do comércio, citando sobrecapacidade industrial chinesa e os controles de terras raras que chegaram a parar linhas automotivas europeias. Mas tarifas não seguraram e reindustrializar leva uma década. Para o Brasil, a leitura é dupla: somos um dos 'terceiros mercados' onde a China ganhou espaço da Europa — e quem entende de onde vem a manufatura mundial (e a que preço) compra melhor. A Europa aprendeu tarde; o importador brasileiro pode aprender agora.

Resumo em pontos

  • Goldman Sachs (via Reuters/CNN): o maior freio ao crescimento da UE é a perda de market share em TERCEIROS mercados para a China, não o déficit bilateral; impacto de 0,2-0,3 p.p./ano no crescimento alemão até 2029.
  • Bens de capital: Europa caiu de 54% para 43% das exportações mundiais desde 2005; China subiu de 7% para 24%; maquinário chinês na Europa +50%; China→UE +16% em 2026.
  • Déficit recorde da UE com a China: € 359,8 bi em 2025 (Eurostat) — importações +6,4%, exportações -6,5%.
  • Carros: marcas chinesas dobraram para ~6% dos emplacamentos da UE e 15-16% dos EVs; tarifas de até 45,3% não seguraram (BYD +153%, Chery +267%, Leapmotor +559%).
  • Alemanha: ~10 mil empregos industriais/mês perdidos; -33% de share das marcas alemãs na China; lucro da VW nas JVs -60%; governo francês vê 55% da manufatura europeia ameaçada (70% na Alemanha); von der Leyen: 'ponto de inflexão'.

Fontes

CNN Brasil/Reuters (02/07/2026): estudo do Goldman Sachs sobre perda de market share da UE em terceiros mercados, números de bens de capital (54%→43% vs 7%→24%), maquinário +50% e fluxos de 2026. Eurostat: déficit recorde de € 359,8 bi em 2025. Euronews e CER: estimativa Goldman de 0,2-0,3 p.p./ano na Alemanha até 2029; queda de 33% de share das montadoras alemãs na China; lucro da VW nas JVs -60%; BMW € 1 bi. Semafor: ~10 mil empregos industriais por mês perdidos na Alemanha. Euronews/ACEA: marcas chinesas com ~6% da UE (dobro em 1 ano) e 15-16% dos EVs; BYD +152,9%, Chery +267%, Leapmotor +559%. Euronews: tarifas de até 45,3% e negociação de preços mínimos. Conselho Europeu: cúpula UE-China de julho/2025 e o 'ponto de inflexão' de von der Leyen. Relatório do planejamento do governo francês (2026): 55% da manufatura europeia ameaçada (70% Alemanha, 35% França). BCE (Economic Bulletin 3/2026): perda de share da zona do euro onde compete com a China desde 2020.

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