Na corrida entre Estados Unidos e China pela inteligência artificial, a disputa por hardware e poder de computação se intensificou. Para tentar travar a China, Washington cortou, a partir de 2022, o acesso do país aos chips mais avançados, as GPUs, dominadas pela americana Nvidia. O objetivo era desacelerar o avanço chinês na IA. O efeito foi o oposto: a China respondeu tirando a Nvidia do seu mercado, vendo a Huawei disparar e construindo o supercomputador mais potente do planeta sem nenhum chip americano. Aqui você entende, com números e fontes, como o bloqueio acabou acelerando a autossuficiência tecnológica da China e o que isso significa para quem importa ou faz negócio com o país.

Os números

  • ~95% — a fatia que a Nvidia chegou a ter no mercado chinês de chips de IA antes do bloqueio dos EUA
  • ~8% — para onde a consultoria Bernstein projeta que a fatia da Nvidia na China despenque em 2026
  • ~50% — a fatia que a Huawei deve alcançar no mercado chinês de chips de IA
  • nº 1 — a posição do supercomputador chinês LineShine no ranking mundial Top500, a 1ª vez que a China lidera desde 2017
  • ~20% — o quanto o LineShine é mais rápido que o americano El Capitan, rodando só com CPUs domésticas

O bloqueio que era para travar a China

O bloqueio que era para travar a China
Crédito: Acervo

Desde 2022, por uma série de medidas de controle de exportação, Washington cortou o acesso da China às GPUs de última geração, os chips altamente procurados que treinam os melhores modelos de IA e são dominados por fornecedores americanos como a Nvidia. A justificativa foi segurança nacional. O objetivo prático era claro: desacelerar o avanço da China na inteligência artificial e em tecnologias que poderiam equipar suas forças armadas. No papel, fazia sentido. Na prática, o efeito foi outro.

A queda da Nvidia dentro da China

A queda da Nvidia dentro da China
Crédito: Acervo

A Nvidia, do CEO Jensen Huang, chegou a ter cerca de 95% do mercado chinês de chips de IA. Dominava quase tudo. Mas, depois do bloqueio e com Pequim incentivando o uso de chips projetados internamente, esse império ruiu rápido: a fatia caiu para perto de 40% em 2025 e a consultoria Bernstein projeta que despenque para cerca de 8% neste ano. O próprio Huang admitiu que a empresa não é mais competitiva no data center chinês. É uma das quedas de participação mais rápidas da história dos semicondutores.

A ascensão da Huawei

A ascensão da Huawei
Crédito: Acervo

Quem ficou com esse mercado foi, principalmente, a Huawei: a previsão é que sua fatia suba para perto de 50% na China. E não é só volume, é tecnologia. O chip mais avançado da empresa, a série Ascend 950, já é visto, por algumas métricas, como aproximadamente comparável ao H200 da Nvidia. Ou seja, a China não está apenas substituindo o fornecedor estrangeiro: está chegando perto no que realmente importa, o desempenho.

O tiro pela culatra: a DeepSeek

O tiro pela culatra: a DeepSeek
Crédito: Acervo

Aqui está a maior ironia. O bloqueio, pensado para atrasar a China, virou combustível. Sem poder comprar o chip pronto, as empresas chinesas foram obrigadas a inovar para contornar a restrição. A DeepSeek, uma startup de IA do país, lançou um modelo com desempenho quase líder do setor usando um número muito menor de chips avançados, surpreendendo o Vale do Silício. A escassez forçada virou uma vantagem de engenharia: fazer mais com menos.

O supercomputador nº1 do mundo

O supercomputador nº1 do mundo
Crédito: Acervo

E veio a cereja do bolo. Pela primeira vez desde 2017, o supercomputador mais potente do mundo é chinês. Chama-se LineShine, fica no Centro Nacional de Supercomputação em Shenzhen e destronou o americano El Capitan no ranking mundial Top500, com velocidade cerca de 20% maior. O detalhe decisivo: ele roda sem nenhuma GPU dos Estados Unidos, funcionando só com CPUs chinesas, os chips que o bloqueio não consegue barrar.

A lição: autossuficiência acelerada

A lição: autossuficiência acelerada
Crédito: Acervo

O caldo é todo de casa: processador próprio (a plataforma LingKun), interconexão própria e até o sistema operacional próprio, o Kylin, um ecossistema inteiro feito na China para escapar da dependência da tecnologia estrangeira. É isso que pouca gente sacou: o estereótipo do país que 'só copia' morreu, e a sanção que era para atrasar acabou acelerando a autossuficiência chinesa. Para quem importa ou faz negócio com a China, entender essa virada primeiro é sair na frente.

Resumo em pontos

  • Desde 2022, os EUA cortaram o acesso da China às GPUs de ponta (Nvidia) para desacelerar sua IA, por segurança nacional (CNN/Estadão, Reuters).
  • A fatia da Nvidia no mercado chinês de chips de IA, que já foi de ~95%, caiu para ~40% em 2025 e a Bernstein projeta ~8% em 2026; Jensen Huang admitiu não ser mais competitivo no data center chinês (Estadão/Bernstein, Yahoo/Reuters).
  • A Huawei deve chegar a ~50% do mercado chinês; seu chip Ascend 950 é visto por algumas métricas como ~comparável ao H200 da Nvidia (Estadão).
  • A DeepSeek lançou um modelo de IA com desempenho quase de ponta usando muito menos chips avançados, surpreendendo o Vale do Silício (CNN/Estadão).
  • Pela 1ª vez desde 2017, o supercomputador nº1 do mundo é chinês: o LineShine, em Shenzhen, destronou o El Capitan no Top500 (jun/2026), ~20% mais rápido e rodando só com CPUs domésticas (plataforma LingKun, interconexão LingQi, sistema Kylin) (CNN, Top500, Al Jazeera, Nature).

Fontes

CNN Brasil/Estadão e Reuters: controles de exportação dos EUA desde 2022 cortando GPUs avançadas da China. Estadão (com relatório da Bernstein) e Yahoo/Reuters: Nvidia de ~95% para ~40% (2025) e projeção de ~8% em 2026, Huawei subindo para ~50%, Jensen Huang admitindo perda de competitividade, chip Ascend 950 ~comparável ao H200. CNN/Estadão: DeepSeek com desempenho quase líder usando menos chips. CNN, Top500, Al Jazeera, Nature e NetworkWorld: LineShine como nº1 do Top500 de junho de 2026 (1ª vez chinesa desde 2017), ~20% mais rápido que o El Capitan, arquitetura só com CPUs domésticas (LingKun/LingQi/Kylin) no Centro Nacional de Supercomputação de Shenzhen.

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