Em 17 de agosto de 2026 a Casas Bahia pediu recuperação judicial com dívida de R$ 17,3 bilhões. A leitura fácil é culpar juros, consumo fraco ou má gestão. A leitura mais útil é olhar para a China, onde a maior varejista de eletrodoméstico do país passou pelo mesmo enredo, com os mesmos números na proporção certa, cinco anos antes. Quando o mesmo modelo de negócio quebra em dois países muito diferentes, o problema não é o país.

Os números

  • R$ 17,3 bilhões
  • 8.682 lojas
  • 8,83 bilhões de yuans

O que aconteceu aqui

A Casas Bahia protocolou o pedido de recuperação judicial em 17 de agosto de 2026, com dívida de R$ 17,3 bilhões, depois de registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. Em agosto, a empresa fechou 298 lojas. Segundo a imprensa especializada, negocia um empréstimo de R$ 1 bilhão, na modalidade DIP, para financiar o processo.

A versão chinesa tem nome

A Suning foi fundada em 26 de dezembro de 1990 por Zhang Jindong, em Nanquim, como uma loja que vendia ar-condicionado. É a mesma origem da Casas Bahia: eletrodoméstico, loja de rua, venda a prazo, relação direta com o cliente do bairro. Foi crescendo até virar rede nacional.

O tamanho que ela chegou a ter

Em junho de 2020, a Suning operava 8.682 lojas em diversos formatos. A receita de 2019 foi de cerca de US$ 37 bilhões, com 130.455 funcionários, e a empresa era descrita como a maior varejista omnicanal da China. Não é o caso de uma empresa pequena que errou: é a líder do setor.

Como a conta chegou

Em setembro de 2020, o fundador abriu mão do direito a um pagamento de 20 bilhões de yuans que tinha a receber da Evergrande. Em junho de 2021, um tribunal de Pequim congelou 3 bilhões de yuans em ações dele por três anos. Dívida no varejo raramente aparece isolada: ela costuma vir junto com exposição a crédito e a outros setores.

Quem salvou, e o que isso diz

Em julho de 2021, um consórcio formado por Alibaba, Haier, Midea, TCL e Xiaomi injetou 8,83 bilhões de yuans e ficou com 16,96% da empresa, evitando o colapso. Em outubro de 2023, a Suning recebeu mais 5 bilhões de yuans de entidades ligadas ao Estado. Repare na composição: fabricantes de eletrodoméstico e plataformas de tecnologia. Quem tinha interesse em manter o canal vivo era quem produzia e quem vendia online, não o sistema financeiro.

O troféu no meio do caminho

Em junho de 2016, no auge, a Suning comprou a Inter de Milão. Uma varejista chinesa de eletrodoméstico virou dona de um clube de futebol italiano. É o tipo de movimento que parece consolidação de marca no momento em que acontece e vira símbolo do descuido com o negócio principal quando a conta chega.

O que realmente derrubou o modelo

A Caixin publicou em março de 2021 uma reportagem cujo título dizia, em resumo, como a Suning caiu em crise enquanto a JD.com disparava. É a chave da história: a venda migrou para a tela, e o custo dos milhares de pontos físicos não migrou junto. O modelo de vender eletrodoméstico a prazo, com margem fina, financiando o cliente e carregando estoque, funciona bem enquanto a loja é o único caminho até o produto. Quando deixa de ser, cada metro quadrado vira passivo e o crédito ao consumidor vira o primeiro rombo.

O que fazer com isso

Para quem vende produto no Brasil, a lição prática não é abandonar loja física, e sim entender que a margem precisa vir de algo que a tela não replica: marca própria, curadoria, especificação e pós-venda. Quem compra da fábrica e vende com a própria marca controla a margem. Quem só revende o que todo mundo revende depende de volume e de crédito, que é exatamente a combinação que quebrou nos dois países.

Resumo em pontos

  • A Casas Bahia pediu recuperação judicial em 17/08/2026, com dívida de R$ 17,3 bilhões.
  • O pedido veio após prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre e o fechamento de 298 lojas em agosto.
  • A Suning, fundada em 1990 em Nanquim, chegou a 8.682 lojas e cerca de US$ 37 bilhões de receita em 2019.
  • Em julho de 2021, Alibaba, Haier, Midea, TCL e Xiaomi injetaram 8,83 bilhões de yuans por 16,96% da empresa.
  • Em outubro de 2023 vieram mais 5 bilhões de yuans, de entidades estatais.
  • O modelo de eletrodoméstico a prazo com loja física quebra quando a venda migra para a tela.

Fontes

G1, Folha de S.Paulo, Estadão, UOL, InfoMoney e VEJA, 17/08/2026 — Casas Bahia pede recuperação judicial com dívida de R$ 17,3 bilhões, após prejuízo de R$ 10,1 bilhões no 2º trimestre

Brazil Journal e Valor Econômico, 17/08/2026 — negociação de empréstimo DIP de R$ 1 bilhão

VEJA e G1, 17/08/2026 — fechamento de 298 lojas em agosto

Wikipedia — Suning.com: fundada em 26/12/1990 por Zhang Jindong; 8.682 lojas em junho de 2020; receita de cerca de US$ 37 bilhões em 2019 e 130.455 funcionários; renúncia a 20 bilhões de yuans da Evergrande em setembro de 2020; congelamento de 3 bilhões de yuans em ações em junho de 2021; aporte de 8,83 bilhões de yuans por 16,96% em julho de 2021 (Alibaba, Haier, Midea, TCL e Xiaomi); 5 bilhões de yuans em outubro de 2023; compra da Inter de Milão em junho de 2016

Caixin Global, 24/03/2021 — reportagem sobre a crise da Suning enquanto a JD.com crescia

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